Estive em contato com etnias peregrinas em dois momentos de minha vida. Visitei brevemente um grupo tuaregue na região desértica do Saara e, de forma mais prolongada, convivi com três famílias fula no nordeste de Gana. Fiquei impressionado com as características que marcam uma sociedade nômade e destacaria três. Eles mantêm uma vida material simples, com bens e posses que podem ser facilmente transportados, descartando o supérfluo. Orientam sua vida pelos relacionamentos pessoais e não pelo território, mantendo um alto nível de compromisso relacional que subsista a diferentes cenários. E, por fim, as motivações que os levam à peregrinação passam por diversas vertentes, sendo uma delas a esperança de encontrar algo melhor em outra terra.

Hebreus nos fala sobre estrangeiros e peregrinos que viveram na esperança e morreram na fé, buscando uma pátria celestial e, por isso, Deus se manifestou como seu Deus e lhes preparou uma morada (Hb 11.13-15). Um desses peregrinos, Abraão, movido por uma promessa de Deus, trocou a cidade pelas tendas, o certo pelo desconhecido, a casa de seus pais pela esperança em Deus.

Fé e esperança são valores essenciais para os cristãos peregrinos e conduzem a uma vida paradoxal. Em Cristo, somos chamados a viver como responsáveis cidadãos da terra, mas orientados pela cidadania dos céus. Sem apego às coisas deste mundo, mas nos alegrando com a criação de Deus. Não mais dominados pela carne, pelo mundo e pelo diabo, mas ainda em luta contra todos eles. Proclamando o evangelho que nos dá salvação, mas não nos tira do mundo ou do caos. Convidando as nações a crerem em Deus, mesmo sabendo que, em muitos casos, seremos perseguidos pela nossa fé. Inconformados com a injustiça na terra, sabendo que a plena justiça vem de Deus. A fé dos peregrinos bíblicos produz resultados na terra e, assim, eles fizeram ruir as muralhas de Jericó, subjugaram reinos, obtiveram promessas e fecharam bocas de leões. Pela fé o impossível pode acontecer, se o Senhor assim desejar.

Há, porém, o outro lado da vivência da fé, pois Hebreus afirma que os que creram foram torturados, passaram pela prova de açoites, foram apedrejados, provados, serrados pelo meio, mortos ao fio da espada e andaram sem rumo. Trata-se de uma fé impregnada de esperança, que não apenas desagua em livramentos e feitos no presente, mas também prepara o cristão para enfrentar o vale do sofrimento sem deixar de crer – a casa do Pai o aguarda.

Alegre-se com as maravilhas da criação de Deus nesse mundo, lembrando que elas apontam para a perfeição que há de vir. Chore todas as lágrimas pelos que partem ou sofrem nessa vida, com a doce convicção de que não haverá choro na casa do Pai. Envolva-se com a proclamação do evangelho de forma intensa, sabendo que na eternidade não haverá evangelização, apenas adoração. Fortaleça a cada dia a sua fé, pois no porvir não precisaremos dela para crer – veremos face a face o nosso Senhor. Sofra as dores que lhe são impostas, sem deixar que a ansiedade ou a amargura o cativem. Jesus pagou o preço por todos os nossos pecados e carregou sobre si as nossas dores. Peregrino, a cada passo fortaleça-se na fé e alimente-se da esperança, vivendo de forma plena os seus dias e lembrando que a casa do Pai o aguarda.

Ronaldo Lidório

Que tal deixar um comentário?