Ronaldo Lidório

Somos chamados a crer e, no mesmo movimento, enviados a partilhar a nossa fé. A comunicação do evangelho é, assim, um chamado de Deus para todos os salvos em Cristo Jesus.

Na perspectiva do apóstolo Paulo, especialmente em suas cartas aos gálatas, coríntios, efésios e nas duas cartas dirigidas a Timóteo, há sete práticas espirituais que resumem a vivência cristã: Palavra, adoração, comunhão, oração, santidade, boas obras e evangelização. Partilhar o evangelho é missão de todo aquele que crê, não um chamado para um grupo de especialistas.

Há uma significativa correlação entre quem somos em Cristo Jesus (nossa identidade) e o que somos chamados a fazer (nossa missão). O apóstolo Pedro relacionou identidade e missão ao afirmar que somos “raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus” com um propósito: “a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pe 2.9). O Senhor Jesus fez o mesmo ao declarar que somos sal da terra e luz do mundo, alertando-nos que nossa identidade (sal e luz) deve estar associada à nossa missão, sob o risco de nos tornarmos um sal sem sabor e uma luz que não brilha. Ele conclui com uma ordem: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus” (Mt 5.13-16).

Entretanto, se anunciar o evangelho é um dos nossos maiores privilégios, é também um dos maiores desafios. Há graves barreiras à evangelização. A primeira é a má compreensão da natureza do evangelho. Sob a influência liberal na segunda metade do século passado, o evangelho foi relido a partir de lentes mais sociológicas do que teológicas. Uma das nocivas consequências foi igualar o evangelho à igreja e, assim, evangelizar tornou-se proclamar a igreja – os redimidos –, e não Cristo – o Redentor. Passou-se a falar mais dos cristãos e menos de Cristo; apresentar mais a obra da igreja do que a obra de Cristo; exaltar mais os heróis da igreja do que o Nome acima de todo nome; levantar mais alto a bandeira eclesiástica do que a bandeira do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Precisamos resgatar a compreensão bíblica de que o evangelho é Jesus Cristo. Se lhe forem dados apenas cinco minutos para partilhar o evangelho, conte a história de Jesus.

A segunda barreira à evangelização é a falta de santidade. No Salmo 51, o salmista clama a Deus para que tenha misericórdia e apague as suas transgressões. Pede para ser lavado da iniquidade e purificado do seu pecado. Confessa que pecou e crê no perdão, que limpa e purifica, santificando a vida. No auge do seu clamor, ele pede que Deus lhe dê um coração puro e suplica que seja mantido na presença do Senhor, sendo restituída a alegria da salvação. Logo depois, afirma uma das consequências da santidade: “Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos, e os pecadores se converterão a ti” (v.13). A santidade realinha, entre outras coisas, a nossa cosmovisão: o modo como vemos o mundo – e nos vemos nesse mundo. Ela nos impulsiona a priorizar o que é prioridade para Deus e torna a nossa vida um testemunho vivo e perceptível da mensagem que é falada. Não há verdadeira evangelização sem uma vida compatível com a fé.

A terceira barreira à evangelização é a timidez espiritual. Curiosamente, a falta de audácia na evangelização não está ligada ao tipo de temperamento ou perfil pessoal. Devemos ser lembrados que nossa luta não é contra carne e sangue, mas contra principados e potestades. A batalha não é essencialmente travada contra estruturas políticas, sistemas sociais ou limitações humanas, mas contra o maligno que possui uma declarada missão entre os homens: roubar, matar e destruir (Jo 10.10). Perante a fragilidade do nosso coração, a astúcia do mundo e as forças espirituais do mal, precisamos de audácia para viver e pregar o evangelho.

Guiado por esse entendimento, o apóstolo Paulo, no fim de sua carta aos Efésios, pede que orem para que lhe seja dada coragem para a pregação do evangelho (Ef 6.19). O maior plantador de igrejas e destemido pregador do evangelho pede oração para que tenha ousadia para evangelizar. Deixa claro que tal coragem não procede de preparo teológico ou experiência de vida, mas de Deus. Precisamos orar mais para evangelizar mais.

Comunicar o evangelho de Jesus Cristo é um grande privilégio e um grande desafio. Envolve palavras e também vida, proclamação e testemunho. Devemos falar das alegrias de Cristo enquanto choramos com os que choram e abraçamos o aflito. É no encontro entre o evangelho falado e o evangelho vivido que se dá a verdadeira evangelização.

Lembremos, porém, que toda transformação de vida é resultado puramente do desejo e da iniciativa de Deus. Nenhum esforço evangelístico, por mais elaborado que seja, conseguiria provocar uma verdadeira transformação. Deus, entretanto, decidiu usar as palavras humanas para que o evangelho dos céus seja transmitido. O reformador João Calvino, explicando a soberania de Deus e a evangelização, diz que “[…] embora Deus seja capaz de realizar a obra secreta de seu Santo Espírito sem quaisquer meios ou assistência, ele também ordenou a pregação externa (pública), para ser usada como um meio. Mas para torná-la um meio efetivo e frutífero, ele escreve com seu próprio dedo em nossos corações aquelas palavras que ele fala em nossos ouvidos pela boca de um ser humano”.1

Lancemos todas as sementes, pois não sabemos qual germinará! Distribua literatura bíblica, introduza sua convicção e fé nas conversações, convide alguém para visitar a igreja, envie mensagens eletrônicas que levem à reflexão espiritual, tenha uma vida compatível com sua fé, ame ao ponto de se envolver com o aflito, vá para praças, ruas, matas e desertos e fale sobre a única verdade sobre a qual não podemos nos calar: Jesus Cristo!

Nota

  1. CALVIN, John. The bondage and liberation of the will; a defence of the orthodox doctrine of human choice against pighius. Baker Academic, 2002.

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