LIDÓRIO, Ronaldo. Introdução à Antropologia Missionária. São Paulo: Vida Nova, 2011. 208 p.

Mineiro de Nanuque, Ronaldo Lidório nasceu em 1966 em uma família evangélica e engajada no trabalho missionário brasileiro. Aos 18 anos iniciou sua vida acadêmica, teve contato com diversas culturas e se dedicou ao estudo teológico e antropológico aplicado à sua responsabilidade missional. É bacharel em Teologia, habilitado em Missiologia e pós-graduado em Antropologia cultural e intercultural. Durante nove anos, ele e sua esposa Rossana trabalharam entre o povo Konkomba em Gana, desenvolvendo projetos sociais e evangelísticos, como a grafia da língua Limonkpeln e tradução do Novo Testamento, a organização de uma clínica, estabelecimento de escolas e perfuração de poços, além do plantio de várias igrejas. Hoje, trabalham com a equipe Amanajé entre os indígenas do Brasil, coordenam o Instituto Antropos e prestam consultoria a diversas organizações missionárias nas áreas de Missões e Antropologia. Ronaldo Lidório é membro da APMT (Agência Presbiteriana de Missões Transculturais) e também da Missão AMEM (A Missão de Evangelização Mundial). É consultor do CONPLEI (Conselho Nacional de Pastores e Líderes Evangélicos Indígenas), da WEC International e da World Evangelical Alliance. Também coordena a área de pesquisa do Departamento de Assuntos Indígenas da AMTB (Associação de Missões Transculturais Brasileiras). É membro da American Anthropological Association desde 2001.

Com um livro que transita por uma área pouco explorada na literatura brasileira, o autor trata dos encontros e desencontros que acontecem há anos entre antropólogos e missionários e, consequentemente, suas respectivas áreas. Sua proposta é abordar a Antropologia aplicada às ações missionárias de forma histórica, conceitual e prática, oferecendo uma base para os desdobramentos que envolvam encontro de culturas e evangelização.

O primeiro capítulo introduz o livro no enfoque histórico da Antropologia, afunilando um pouco sobre os conceitos teóricos da Antropologia Cultural aplicada às atividades missionárias. No segundo capítulo, o autor começa a trabalhar, também historicamente, as interações já ocorridas entre antropólogos e missionários, esclarecendo que por meio da coleta, organização e distribuição dos dados etnográficos obtidos através da convivência, o missionário pode (e o fez durante anos) contribuir de forma relevante para a pesquisa antropológica.

As considerações sobre o ambiente de animosidade entre antropólogos e missionários aparecem no capítulo três. Os pontos de vista de cada um são explicados, bem como os desencontros a partir de suas funções e visões na sociedade. Enquanto antropólogos primam por processos que promovem a pesquisa, missionários se debruçam no desenvolvimento de relações diretas com a sociedade. Assim, não raras vezes, antropólogos taxam missionários de nocivos intervencionistas e missionários classificam antropólogos como socialmente estéreis. Apesar disso, Lidório diz que a quebra de preconceitos e um ajuntamento desses segmentos seria bastante proveitoso tanto cientificamente quanto socialmente, pois a metodologia da pesquisa científica de um lado complementaria a aproximação social mais integral do outro.

O quarto capítulo traz nomes dos missionários-antropólogos que têm tido expressiva relevância nas diversas ações de treinamento, conscientização e formação missionária, bem como na sólida produção literária. Em breve revisão bibliográfica, o quinto capítulo aponta teóricos que influenciaram em maior escala a formação da Antropologia Missionária e segue com a apresentação do roteiro de análise de sistemas culturais desenvolvido pelo próprio autor e denominado Método Antropos, o qual tem por pressuposto servir como guia na observação e estudo em situação de encontro cultural, além de aproveitar os dados coletados na viabilização de ações missionárias.

Os conceitos de intervenção e mudança que tanto produzem tensão entre antropólogos e missionários voltam no capítulo seis para uma visão mais detalhada. O autor defende uma abordagem equilibrada tendo como crivo os princípios de autonomia e liberdade para assegurar que as mudanças (que ocorrem por diversos fatores) aconteçam por iniciativa interna, não imposta, além de serem cônscias e almejáveis pelo grupo que as experimentam.

Lidório expõe no capítulo sete sobre catequese e evangelização, mostrando especialmente as diferenças (metodológicas e conceituais) entre as ações. A catequese – cristã ou não cristã, católica ou evangélica – tem por base a comunicação dos conceitos por meio dos códigos de quem transmite, sem a devida atenção ao receptor. É, assim, uma ação imposicionista. Já a evangelização é dialógica e relacional, utiliza os códigos e processos do ouvinte para conversa e exposição, baseando-se nos critérios de sensibilidade e compreensão cultural.

No capítulo oito, o autor começa a tratar do uso da Antropologia nos campos missionários com ênfase etnográfica. A comunidade missionária tem como pontos fortes a vivência de campo e a coleta de dados, mas ainda lhe falta a metodologia etnológica. E esta é, possivelmente, uma das maiores necessidades: transpor-se da etnografia para a etnologia, da coleta de dados culturais para o exame e compreensão do seu significado. Lidório avalia que, no Brasil, a formação missionária tem deixado a desejar no preparo antropológico ao dar pouca ênfase às disciplinas da área, bem como à sua aplicação nas ações missionárias.

A importância dos processos de comunicação que intencionam inteligibilidade, aplicação e contextualização da mensagem é abordada no nono capítulo. Considerando a comunicação como um fato social que inclui as partes, o autor afirma que ela deve ser dialógica, relacional, inteligível, ética e aplicável, e se concentra em tratar da metodologia de transmissão de uma mensagem. Ele deixa claro que uma comunicação fiel e relevante só será possível se houver, da parte do comunicador, o compromisso com a análise cultural e ampla compreensão da cosmovisão do grupo com quem se trabalha, para isso pontua dicas práticas para o bom relacionamento e aprendizado (da língua e cultura) com o grupo.

O capítulo dez é conceitual, uma introdução aos termos: Antropologia – como consequência histórica das notas, acontecimentos e conceitos reunidos em torno da identidade humana em seus diversos agrupamentos sociais -, cultura – baseando-se na observação de Paul Hiebert como os princípios um tanto agregados em conceitos, emoções, importâncias e padrões que são vivenciados por pessoas organizadas em torno do que raciocinam, sentem e fazem – e homem – como um ser em cultura, determinado por sua história, seus conceitos e sua inclusão na sociedade.

Três padrões de observação cultural são expostos no capítulo 11: o ético – com a aproximação, análise e conceituação de um fato antropológico a partir da interpretação e perspectiva cultural do observador –, o êmico – com a análise de um fato antropológico a partir da interpretação de quem vivencia a cultura experimentadora do acontecimento – e o êmico-teológico – com o padrão de observação cultural êmico, a partir de quem o vivencia, somado à aplicação dos princípios bíblicos supraculturais.

A análise sociocultural é apontada por Lidório como uma das mais importantes contribuições da Antropologia à comunidade missionária, por isso, no capítulo 12, apresenta as bases de estudo que utilizou na elaboração do Método Antropos, denominando-as dimensões: histórica, ética, étnica e fenomenológica. Há também o método de desenvolvimento de pesquisa em contexto urbano, o Urbanos. Porém, o autor ressalta que, independente do método utilizado, é muito importante que o pesquisador/missionário atente para o modo pelo qual desenvolverá a pesquisa, priorizando o contato, aprendendo a partir de relações e observação, registrando, organizando e refletindo sobre tudo o que for coletado e aplicando o que foi avaliado nos processos de comunicação.

Seguindo a perspectiva antropológica, nos capítulos 13 a 16, Lidório começa a tratar dos quatro temas que considera indispensáveis na construção do pensamento religioso de uma sociedade, quais sejam: magia, ritos, mitos e totemismo. O autor conceitua, descreve utilidade, identifica elementos de formação e as categoriza.

O capítulo 17 é proposto para discutir o processo da evangelização de forma contextualizada. O autor lembra que dois limitadores desse processo são a insuficiência de compreensão do outro e do próprio Evangelho (mensagem). Sobre isso, há o perigo da imposição – com a tendência humana de aplicar ao outro seu próprio padrão cultural -, o perigo do pragmatismo – com a postura simplesmente prática, baseada em resultados – e o perigo sociológico – com a postura simplesmente humanista, baseada em solucionamentos. O autor esclarece que a contextualização não possui valor por si só, mas pelo conteúdo a ser contextualizado, por isso ele propõe alguns princípios bíblicos para uma boa contextualização da mensagem do Evangelho e segue com exemplos bíblicos do modelo paulino de exposição do Evangelho.

Em suas últimas considerações, Lidório faz alguns apontamentos sobre os interesses e finalidades da Antropologia Missionária, recapitula o que tratou no desenvolvimento do livro e expõe que o maior desafio ao tratar dessa área é a efetiva comunicação da mensagem, ou seja, ser fiel ao conteúdo e, ao mesmo tempo, inteligível e relevante ao ouvinte.

A obra traz ainda cinco apêndices: (1) O Manifesto do DAI/AMTB – 2009, sobre a presença e atuação missionárias entre os povos indígenas do Brasil; (2) A Declaração de Manaus, um manifesto assinado pelos alunos da primeira turma do curso de pós-graduação em Antropologia Intercultural da UniEvangelica e Instituto Antropos, reconhecendo a relevância da área estudada, a importância da aproximação do científico antropológico e das ações missionárias e se comprometendo com a produção reflexiva das ciências propostas, visando a defesa dos interesses dos povos entre os quais trabalham; (3) Uma breve descrição sociocultural da sociedade brasileira e a apresentação do Método Urbanos; (4) Uma compilação de estudos de caso e algumas sugestões de como utilizá-los; (5) O questionário direcionador do roteiro de análise de sistemas culturais, denominado Método Antropos.

Fazendo jus ao aspecto introdutório, o autor trabalha muito bem a historicidade da Antropologia Cultural, seus expoentes e influência na Missiologia, dando base à aplicabilidade científica no campo missionário. Os capítulos são curtos, mas cheios de informações e bem divididos. Lidório não se esquece de conceituar, classificar, exemplificar e aplicar o que propõe. Cada nova informação traz um estudo de caso aplicável que contribui para a fixação.

Além de uma excelente introdução e direcionamento para o estudo acadêmico e consolidação da perspectiva antropológica-missionária, o livro também é um importante meio de estímulo para a quebra de preconceitos entre os representantes das áreas abordadas, sabendo que uma posição equilibrada é benéfica a todos, especialmente às necessidades dos grupos que são alvo de estudo e atuação de antropólogos e missionários.

A obra em questão recebeu o prêmio Areté 2012, promovido pela ASEC (Associação de Editores Cristãos), na categoria missão / nacional. Lidório, na mesma cerimônia, recebeu o prêmio de autor / nacional.

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