{"id":6,"date":"2016-05-24T18:02:32","date_gmt":"2016-05-24T18:02:32","guid":{"rendered":"http:\/\/ronaldo.lidorio.com.br\/wp\/2016\/05\/24\/chomsky-levy-strauss-e-mauss\/"},"modified":"2016-05-24T18:02:32","modified_gmt":"2016-05-24T18:02:32","slug":"chomsky-levy-strauss-e-mauss","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ronaldo.lidorio.com.br\/wp\/chomsky-levy-strauss-e-mauss\/","title":{"rendered":"Chomsky, Levy-Strauss e Mauss"},"content":{"rendered":"<p>O pensamento socio-filos\u00f3fico e a necessidade de Deus<\/p>\n<p>A filosofia antropol\u00f3gica \u00e9 uma das minhas \u00e1reas de interesse, sobretudo as teorias que giram em torno das formas normativas para agrupamentos sociais. Nos \u00faltimos tempos tenho lido pensadores contempor\u00e2neos que, em algum instante de suas conclus\u00f5es te\u00f3ricas, propuseram a n\u00e3o exist\u00eancia de Deus. J\u00e1 estudava Chomsky h\u00e1 algum tempo e recentemente interessei-me por outras mentes brilhantes que igualmente iniciaram suas carreiras acad\u00eamicas tentando dispensar teoricamente a exist\u00eancia do Eterno na formula\u00e7\u00e3o social humana. Minha pequena pesquisa pessoal tinha como alvo avaliar as conclus\u00f5es finais em seus estudos j\u00e1 que todo pensador possui valores ainda inconclusivos ao longo da pesquisa. Como interessado na antropologia sinto-me atra\u00eddo pelo que podemos chamar de \u2018acuo filos\u00f3fico\u2019. Um momento dial\u00e9tico em que o pensador (ou uma sociedade pensante) conclui, mesmo com amargura e n\u00e3o raramente revolta acad\u00eamica, a necessidade do Eterno sem o qual a humanidade torna-se emp\u00edrica e filosoficamente invi\u00e1vel. Reconhe\u00e7o como leitor da Palavra que n\u00e3o h\u00e1 a\u00ed nenhuma luz que os conduza a Deus. Somente a Gra\u00e7a o faz. Entretanto h\u00e1 certamente uma escurid\u00e3o que faz compreender o v\u00e1cuo existencial sem a concep\u00e7\u00e3o de Deus.<\/p>\n<p>Lendo o pensamento cient\u00edfico destes pensadores torna-se quase facilmente percept\u00edvel a sua divis\u00e3o conclusiva em dois grupos. Aqueles que se frustram existencialmente e inconcluem suas teorias como Nietzche com seu niilismo onde se torna \u201cnegador de Deus\u201d (1) e posteriormente (como seria diferente?) negador da vida sendo claramente influenciado pelo trauma da morte do pai, ministro luterano, j\u00e1 por algum tempo enlouquecido, quando ainda era crian\u00e7a. Ou por Kafka em seu ceticismo disfuncional onde jamais chegou a conceber sentido para a vida e vendo o mundo como \u201cuma sociedade esquel\u00e9tica sem qualquer fim\u201d (2) e sem conseguir detectar \u2018a fonte da formula\u00e7\u00e3o deste cen\u00e1rio socio humano que chamamos de vida\u2019 (3) que aparentemente era seu alvo inicial. Seguem-se a estes, outros como Derrida, Freud, atualmente Goleman e quase todos \u00e0 sombra de Darwin sem mencionar Kant com seu racionalismo ir\u00f4nico onde diz ter \u201cdestru\u00eddo Deus para depois o reinventar, apenas em benef\u00edcio da necessidade te\u00edsta de Lampe, seu criado\u201d. (4)<\/p>\n<p>O segundo grupo \u00e9 formado por aqueles que, ao fim, conseguem achar humildade de esp\u00edrito suficiente para concluir que, mesmo n\u00e3o defendendo cientificamente a exist\u00eancia de Deus, a vida (especialmente a humana) n\u00e3o poderia ser concebida sem a presen\u00e7a interventora do Eterno. Rendem-se, n\u00e3o \u00e0 adora\u00e7\u00e3o a Deus, mas \u00e0 sua necessidade, para eles pr\u00f3prios existirem. Dentre eles encontramos Levy-Strauss, Chomsky, Mauss e o pr\u00f3prio Kant, em seus arroubos de ilumina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Gostaria inicialmente de destacar Noam Chomsky, um dos mais respeitados ling\u00fcistas do s\u00e9culo XX, conhecido por sua busca axiom\u00e1tica das estruturas de comunica\u00e7\u00e3o e influente no mundo acad\u00eamico e filos\u00f3fico. Judeu, filho de um estudioso da l\u00edngua Hebraica, tentou ele explicar racional e empiricamente as ra\u00edzes de comunica\u00e7\u00e3o socio-humana quando, desenvolvendo seus principais estudos em Harvard foi tomado pela s\u00edntese te\u00f3rica, \u00f3bvia ao seu ver, da \u2018cogni\u00e7\u00e3o inata\u2019. Em poucas palavras trata-se da compreens\u00e3o de que a comunica\u00e7\u00e3o socio-cultural foi desenvolvida antes dos agrupamentos sociais. Ou seja, toda a estrutura de comunica\u00e7\u00e3o humana, verbal ou semi\u00f3tica, foi criada antes do ser humano se agrupar. Ele afirma que \u2018a liberdade ling\u00fc\u00edstica e a criatividade n\u00e3o s\u00e3o adquiridas, mas sempre existiram de forma aprior\u00edstica\u201d (5) e finalmente sucumbe reconhecendo que usu\u00e1rios de linguagem jamais poderiam compreender novas estruturas gramaticais sem jamais as ter encontrado na pr\u00e1tica, o que torna a linguagem inata, e primeira, antes da dispers\u00e3o social. Chomsky concluiu a necessidade do Eterno para que a humanidade pudesse se comunicar.<\/p>\n<p>Chomsky trata tamb\u00e9m em outros estudos da aquisi\u00e7\u00e3o da linguagem e a sua compet\u00eancia pressupondo a criatividade como sendo algo nascido do \u201cest\u00edmulo\/resposta\u201d (6). Entretanto mais uma vez conclui que a linguagem, por sua estrutura socio-comunicativa, n\u00e3o poderia ter sido assimilada. Antes precisaria ter sido criada pr\u00e9-homem. Afirma que \u2018a linguagem n\u00e3o possui, como muitos imaginavam, um status aut\u00f4nomo, &#8230;.. mas sim a express\u00e3o do sujeito psicol\u00f3gico\u2019 (7). Segundo o ling\u00fcista Saussure (8) \u2018primeiro surgiu a parole (fala), depois a langue (estrutura gramatical)\u2019. Garnins reconhece que \u2018a fala surgiu com o primeiro homem, portanto n\u00e3o evoluiu com as escalas pr\u00e9-humanas, e indica o dedo de Algu\u00e9m que, antes do homos, j\u00e1 se comunicava\u2019 (9). Mais uma vez n\u00e3o podemos entender aqui qualquer apologia teol\u00f3gica mas ver t\u00e3o somente pensadores e fil\u00f3sofos reconhecendo a necessidade de Deus. Um acuo filos\u00f3fico.<\/p>\n<p>Claude Levy-Strauss \u00e9 um dos mais renomados, e citados, antrop\u00f3logos em nossos dias. Filho de pais artistas, intuitivo e acad\u00eamico, completou sua agregation em filosofia na Sorbonne nos anos 30 e at\u00e9 mesmo teve uma r\u00e1pida passagem por S\u00e3o Paulo como professor de antropologia. Sua obra cl\u00e1ssica (As Estruturas Elementares do Parentesco) possui clara e forte influ\u00eancia de Mauss (que al\u00edas chegou pr\u00f3ximo das suas conclus\u00f5es chamadas \u2018m\u00edsticas\u2019). Em sua tese inicial Levi-Strauss estuda o agrupamento humano em uma perspectiva evolutiva e assim esperava-se encontrar ao longo das pesquisas etnol\u00f3gicas uma paralela evolu\u00e7\u00e3o dos valores humanos. Entretanto, para surpresa do racionalismo e existencialismo reinantes na \u00e9poca, Levy-Strauss analisa os agrupamentos humanos hist\u00f3ricos e presentes sob a \u00f3tica de uma pesquisa emp\u00edrica e conclui que os valores s\u00f3cios culturais sem sombra de d\u00favidas eram pr\u00e9-estabelecidos. Em outras palavras, o valor moral existiu antes dos agrupamentos humanos se dispersarem para a forma\u00e7\u00e3o de grupos maiores. Utilizando o estudo antropol\u00f3gico de alguns axiomas gerais como o incesto ele concluiu que tais valores existiam antes da forma\u00e7\u00e3o da sociedade alvo. Se o homem ainda n\u00e3o havia tido \u2018hist\u00f3ria\u2019 suficiente para, ele mesmo, desenvolver seu padr\u00e3o moral e transmiti-lo a grupos posteriores, qual a raiz do padr\u00e3o moral ? N\u00e3o h\u00e1 resposta fora da pessoa de Deus. Levy-Strauss menciona que \u2018&#8230;o princ\u00edpio da vida n\u00e3o pode ser unicamente explicado por uma vers\u00e3o do funcionalismo (vive-se para um fim) nem tampouco empiricamente por fatos condenados a falares por si mesmos&#8230; De fato, sistemas de parentesco mant\u00eam a natureza em xeque pois o incesto, a priori, n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno natural, evolutivo, mas sim axiom\u00e1tico, pr\u00e9-existente\u2019 (10).<\/p>\n<p>Curiosamente passei a ler um pouco mais de Mauss, que fortemente influenciou Levy-Strauss. Apesar de n\u00e3o possuir conclus\u00f5es t\u00e3o expressivas ele exp\u00f5e exaustivamente o conceito de \u2018mana\u2019. \u2018Mana\u2019 para Mauss \u00e9 uma inexplic\u00e1vel sobrenaturalidade sem a qual as sociedades tornar-se-iam invi\u00e1veis. A conclus\u00e3o nesta fase inicial de Mauss foi a de unicidade. A humanidade \u00e9 uma pois vivemos sob a sombra de um s\u00f3 \u2018mana\u2019. Chegou a esta conclus\u00e3o ap\u00f3s o estudo exaustivo etnogr\u00e1fico de tr\u00eas grupos, os Potlatch na Am\u00e9rica, os Kula no Pac\u00edfico e os Hau da Nova Zel\u00e2ndia. Afirmou, ao fim, que \u2018passo a crer em meios necessariamente biol\u00f3gicos de se entrar em comunica\u00e7\u00e3o com Deus\u2019 (11). N\u00e3o pensemos entretanto que \u2018comunica\u00e7\u00e3o com Deus\u2019 prov\u00e9m de uma concep\u00e7\u00e3o teol\u00f3gico\/revelacional. Ele jamais chegou perto disto. Entretanto reconhece que sem \u2018mana\u2019, a exist\u00eancia aut\u00f4noma do Eterno interventor, a sociedade como existe hoje seria inconceb\u00edvel pois \u2018todos os grupos culturalmente definidos concordam, buscam e reconhecem submiss\u00e3o do invis\u00edvel sobre a natureza humana\u2019 (12). Mais uma vez enfatizo que n\u00e3o h\u00e1 apologia teol\u00f3gica mas sim reconhecimento da necessidade de conceber Deus, sem o qual invibializaria a pr\u00f3pria transmiss\u00e3o cultural.<\/p>\n<p>Temos aqui, portanto, uma tr\u00edade de conclus\u00f5es filos\u00f3ficas as quais, distintas e te\u00f3ricas, desembocam na expectativa por Deus. Chomsky reconhece a necessidade de Deus para justificar a exist\u00eancia da comunica\u00e7\u00e3o pr\u00e9-social e pr\u00e9-evolutiva. Levy-Strauss o faz para conseguir explicar a exist\u00eancia de um padr\u00e3o moral na raiz dos agrupamentos sociais e Mauss torna-se quase obcecado pelo \u2018existente espiritual \u2018 que chama de \u2018mana\u2019 sem o qual a transmiss\u00e3o de cultura se tornaria invi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Como temos a Revela\u00e7\u00e3o B\u00edblica, que exp\u00f5e um Deus existente e redentor a busca do homem. n\u00e3o precisamos de conclus\u00f5es filos\u00f3ficas para fundamentar nossa f\u00e9. Entretanto faz bem \u00e0 alma perceber que, mesmo na escurid\u00e3o anti-te\u00edsta, homens, imagem de Deus, n\u00e3o conseguem parar de buscar no Eterno o Ser iniciador e mantenedor social. E isto me faz pensar que, no v\u00e1cuo existencial do pecado, sob a escurid\u00e3o da incredulidade e ante as hostes do inferno, a exist\u00eancia de Deus \u00e9 a \u00fanico alento perante o desespero de um homem a procura do sentido da vida, qualquer vida. N\u00e3o h\u00e1 vida sem Deus.<\/p>\n<p>Notas<br \/>(1) Human All Too Human, Cambridge Univ. Press 1986<br \/>(2) The Diaries of Franz Kafka, Peregrine 1964<br \/>(3) Literature and Evil, G. Bataille, 1973<br \/>(4) Cr\u00edtica da Raz\u00e3o Pr\u00e1tica \u2013 Grandes Fil\u00f3sofos, Ed. Globo 1952<br \/>(5) Do Estruturalismo \u00e0 p\u00f3s modernidade, John Lechte, Difel 1994<br \/>(6) Chomsky: Selected Readings, J. Allen, Oxford University Press. 1971<br \/>(7) Language and Problems of Knowledge, Cambridge, MIT Press 1988<br \/>(8) Ferdinand de Saussure, chamado de \u201cpai da ling\u00fc\u00edstica e do estruturalismo\u201d nos c\u00edrculos de Genebra no in\u00edcio do sec XX<br \/>(9) Signs and System, Holdcroft, Cambridge Univ Press 1991<br \/>(10) The Bearer of Ashes, D. Pace, Boston 1983<br \/>(11) As t\u00e9cnicas do corpo, Marcell Mauss, Editora da Univ de S\u00e3o Paulo 1974. Na verdade Ele aqui se referia a Pascal quando afirmou instruiu: \u201cAjoelhe-se, mova os l\u00e1bios em ora\u00e7\u00e3o e voc\u00ea acreditar\u00e1 em Deus\u201d.<br \/>(12) Do Estruturalismo \u00e0 p\u00f3s modernidade, John Lechte, Difel 1994&#8242;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pensamento socio-filos\u00f3fico e a necessidade de Deus A filosofia antropol\u00f3gica \u00e9 uma das minhas \u00e1reas de interesse, sobretudo as teorias que giram em torno das formas normativas para agrupamentos sociais. Nos \u00faltimos tempos tenho lido pensadores contempor\u00e2neos que, em algum instante de suas conclus\u00f5es te\u00f3ricas, propuseram a n\u00e3o exist\u00eancia de Deus. 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