{"id":36,"date":"2016-05-24T19:47:05","date_gmt":"2016-05-24T19:47:05","guid":{"rendered":"http:\/\/ronaldo.lidorio.com.br\/wp\/2016\/05\/24\/conceituando-os-mitos\/"},"modified":"2016-05-24T19:47:05","modified_gmt":"2016-05-24T19:47:05","slug":"conceituando-os-mitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ronaldo.lidorio.com.br\/wp\/conceituando-os-mitos\/","title":{"rendered":"Conceituando os Mitos"},"content":{"rendered":"<p>Um aspecto muito valorizado na fenomenologia \u00e9 o mito. Numa breve conceitua\u00e7\u00e3o devemos dizer que o mesmo se distingue da hist\u00f3ria n\u00e3o por crit\u00e9rios de veracidade mas sim de forma. N\u00e3o se refere, portanto, a uma historia contada mas sim a uma historia vivida. Nas palavras de Malinowski \u201c\u00e9 uma realidade viva, que se cr\u00ea ter acontecido em tempos recuados e que continua a influenciar o mundo e os destinos humanos\u201d.[1] Vemos, portanto, que o mito \u00e9 de fato uma for\u00e7a cultural e de implica\u00e7\u00f5es sociais. Por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 um elemento est\u00e1tico em sua cultura. Malinowski mais uma vez pontua que \u201co mito&#8230; \u00e9 constantemente recriado; cada mudan\u00e7a hist\u00f3rica gera a sua mitologia, que, no entanto, apenas se relaciona indiretamente com o fato hist\u00f3rico. O mito \u00e9 um constante derivado da f\u00e9 viva, que carece de milagres; de estudo sociol\u00f3gico, que exige antecedentes; de norma moral, que requer san\u00e7\u00e3o\u201d. [2]<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ele, assim, nos apresenta a uma tese prov\u00e1vel. Observo que a religiosidade de um povo, especialmente animista, \u00e9 din\u00e2mica e baseada sobretudo em sua mitologia. Por\u00e9m pergunto-me, algumas vezes, se os mitos fundamentam a religiosidade ou se a religiosidade gerou os mitos. De certa forma mito e magia compartilham o mesmo valor utilit\u00e1rio. Enquanto a primeira se prop\u00f5e a ser uma pr\u00e1tica de manipula\u00e7\u00e3o da vida o segundo fundamenta as id\u00e9ias, conceitos e cren\u00e7as para que a vida fa\u00e7a sentido, sobretudo a religiosidade. As explica\u00e7\u00f5es da vida, da exist\u00eancia, dos poderes que regem o mundo, das enfermidades, certezas e incertezas, a dubialidade do universo, tudo pode ser encontrado, seus valores, na mitologia de um grupo quando a mesma \u00e9 preservada e transmitida.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Minha observa\u00e7\u00e3o, sobretudo dos Konkombas de Gana, leva-me a pensar que h\u00e1 uma modula\u00e7\u00e3o entre o perfil \u00e9tnico e a mitologia presente. Ou seja, a forma tradicional ou progressista, \u00e9tica ou a-\u00e9tica, m\u00e1gica ou espiritualista, te\u00f3fana ou naturalista, de um grupo coincide com os elementos em sua mitologia que fundamentam n\u00e3o apenas suas cren\u00e7as mas seu perfil etno-social desde o agrupamento at\u00e9 a solu\u00e7\u00e3o para os conflitos da vida. Sendo a mitologia din\u00e2mica, possivelmente os representantes de um grupo com clara fundamenta\u00e7\u00e3o em sua mitologia, n\u00e3o apenas se utilizaram dos mitos existentes mas criaram e recriaram estes e novos mitos a fim de que se encaixassem no perfil do povo e suprisse a sua expectativa. Desta forma a mitologia n\u00e3o \u00e9 apenas fundante mas tamb\u00e9m manipulada. N\u00e3o ocorre de forma intencional coletiva mas fragmentada e individualizada. Portanto os mitos podem guardar n\u00e3o apenas as explica\u00e7\u00f5es da vida mas, em alguns casos, s\u00e3o um resultado fabricados da pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Entre os Konkombas de Gana a mitologia que contorna o personagem Uwumbor \u00e9 enigm\u00e1tica ao falar sobre um ser que criou e se distanciou, que observou o pecado do \u2018ukpakpalja\u2019 \u2013 homem ganancioso \u2013 e se revoltou levando consigo o \u2018paacham\u2019 \u2013 para\u00edso. Por\u00e9m a mitologia tamb\u00e9m afirma que Uwumbor, desde os tempos recuados, desceu \u00e0 terra mais duas vezes, ambas para punir o povo pelo crescimento de seu mal. Esta cren\u00e7a mitol\u00f3gica coincide, por\u00e9m, com uma epidemia que teria devastado boa parte da etnia Konkomba-Bimonkpeln em 1870 e a guerra contra os senhores da terra (Gonjas e Dagombas) em 1942 (que se repetiu em 1993 e 1997). Especialmente em 1942 muitos Konkombas foram mortos, especialmente representantes dos principais cl\u00e3s. Da mesma forma que percebemos, portanto, que a mitologia de Uwumbor e ukpakpalja remonta a um tempo antigo, no passado recuado, que patrocinou cren\u00e7as e convi\u00e7\u00f5es a partir de um deus distante e esp\u00edritos presentes, levando-os a toda sorte de atos de invoca\u00e7\u00e3o, adora\u00e7\u00e3o e temor, percebemos por outro lado o elemento utilit\u00e1rio, e possivelmente produzido de forma intencional, do retorno de Uwumbor para explicar os fatos da vida, no caso a epidemia e a guerra perdida. Assim os mitos funcionam como interlocutores em grupos com enraizada tradi\u00e7\u00e3o oral, e interagem com a vida explicando-a e sendo moldado para explic\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Mitos, ent\u00e3o, s\u00e3o narrativas de id\u00e9ias mais antigas. Ao passo que novos mitos podem ser criados, os mais antigos influenciam mais a comunidade. Algumas categorias de mito podem devem ser observadas neste momento.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Mitos de cosmogonias, que relatam sistemas e momentos de origem do universo e homem pelo deus, deuses ou for\u00e7a geradora de vida. Estes mitos nos ajudam na teologia da cria\u00e7\u00e3o. Os mitos de cosmogonias s\u00e3o presentes sobretudo em culturas tradicionais, hist\u00f3ricas e te\u00f3fanas e, sobretudo espiritualistas apesar de tamb\u00e9m serem encontrados em agrupamentos m\u00e1gicos. Normalmente agrupamentos tot\u00eamicos possuem vasta preserva\u00e7\u00e3o dos mitos de cosmogonias visto que ali est\u00e3o enraizadas parte da l\u00f3gica tot\u00eamica que comp\u00f5e um grupo ou cl\u00e3.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Mitos de antropogonias, que relatam a cria\u00e7\u00e3o do ambiente de vida do homem como animais, plantas e ar. Tamb\u00e9m nos ajudariam nas teologias da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Mitos antigos, que relatam per\u00edodos marcantes ap\u00f3s a cria\u00e7\u00e3o. Entre os abor\u00edgines da Austr\u00e1lia \u00e9 chamado de \u2018tempo dos sonhos\u2019. Entre os Bassaris do Togo s\u00e3o \u2018as \u00e1rvores que contam a hist\u00f3ria\u2019. Trata-se aqui de mitos e lendas que falam do tempo em que deus e homem conversavam, os primeiros traidores, os primeiros her\u00f3is, o crime mais hediondo, os nomes que viriam a ser, depois, os famosos ancestrais, o inicio dos cl\u00e3s e grupos, divis\u00e3o de l\u00ednguas, dispers\u00e3o social e outros aspectos que nos ajudam, estes antigos, na teologia da queda.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Mitos de metamorfose, que relatam eventos marcantes repens\u00e1veis por mudan\u00e7as da forma \u2018antiga\u2019 do mundo e o tornaram como \u00e9 hoje. Relembremos que entre os Konkombas h\u00e1 aquele mito que relatei atr\u00e1s do homem ganancioso, primeiro criado por Uwumbor, que subia na copa da arvore a cada fim de dia para cortar um bom peda\u00e7o de carne do c\u00e9u azul, que \u00e9 cheio de carne e era bem baixo o suficiente. Sua ordem era retirar apenas o necess\u00e1rio para o dia. Entretanto, desconfiando de Uwumbor, certo dia o \u2018ukpakpalja\u2019 cortou carne para muitos e muitos dias e a escondeu. No dia seguinte esta veio a apodrecer, causando grande desilus\u00e3o a Uwumbor que se distanciou e levou consigo o c\u00e9u, Pacham, para bem longe, ao alto, inating\u00edvel. Este tipo de mitos nos ajuda na teologia da uni\u00e3o com Deus e na expectativa da proximidade com Deus, como temos na teologia da reconcilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Mitos de seres espirituais, que relatam os personagens invis\u00edveis, seus nomes, feitos, origem, hist\u00f3ria. Nos ajudam a definir o mundo do al\u00e9m e o mundo do aqu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Mitos naturais, que relatam e explicam muitas vezes, fatos naturais como chuva, raios, trov\u00e3o, o curso dos rios e sistemas afins. Podem nos ajudar, a partir do extrato de suas explica\u00e7\u00f5es, a explicarmos o Evangelho.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Mitos messi\u00e2nicos, os quais relatam personagens ou for\u00e7as que trazem salva\u00e7\u00e3o ao povo. Antrop\u00f3logos tendem a crer que s\u00e3o raros, por\u00e9m tais mitos ocorrem, n\u00e3o objetivamente, em diversas culturas. Para os Tariana o mito de \u201cKeeteh\u201d pode representar messianismo quando relata a luz que, ao fim, brilhar\u00e1 e jogar\u00e1 longe a tristeza do povo T\u00e1ria. Para os Konkombas de Gana o \u2018mantotiib\u2019, pacto de amizade entre fam\u00edlias outrora inimigas, apontava para um que faria o \u2018mantotiib\u2019 entre Deus e os homens. Para os Chakalis, o quebrar de uma caba\u00e7a significa perd\u00e3o. Cantigas louvam \u2018aquele\u2019 que quebrar\u00e1 a grande caba\u00e7a onde se encontram todas as maldades dos Chakalis. S\u00e3o mitos messi\u00e2nicos e ajudam na teologia da reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Independentemente das diverg\u00eancias antropol\u00f3gicas , se os mitos geram id\u00e9ias ou o contr\u00e1rio, s\u00e3o as id\u00e9ias que nos interessam, n\u00e3o importa tanto sua g\u00eanese. A hist\u00f3ria \u00e9 uma narrativa ver\u00eddica comprovada e o mito necessita de f\u00e9, \u00e9 uma narrativa experimentada.<\/p>\n<p>[1] Malinowski, Bronislaw. Magia, ci\u00eancia e religi\u00e3o. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, 1988.<\/p>\n<p>[2] idem<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um aspecto muito valorizado na fenomenologia \u00e9 o mito. 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