{"id":10,"date":"2016-05-24T18:09:03","date_gmt":"2016-05-24T18:09:03","guid":{"rendered":"http:\/\/ronaldo.lidorio.com.br\/wp\/2016\/05\/24\/formacao-missiologica-ou-treinamento-missionario\/"},"modified":"2016-05-24T18:09:03","modified_gmt":"2016-05-24T18:09:03","slug":"formacao-missiologica-ou-treinamento-missionario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ronaldo.lidorio.com.br\/wp\/formacao-missiologica-ou-treinamento-missionario\/","title":{"rendered":"Forma\u00e7\u00e3o Missiol\u00f3gica ou Treinamento Mission\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p>O Desafio do Preparo Mission\u00e1rio em um Contexto de Preju\u00edzo Hist\u00f3rico<\/p>\n<p>Para entendermos os crit\u00e9rios das mudan\u00e7as na \u00e1rea de ensino missiol\u00f3gico em todo o mundo nos \u00faltimos 30 anos precisamos estudar as tend\u00eancias teol\u00f3gicas presentes em cada contexto.<\/p>\n<p>A grosso modo ver\u00edamos que nos anos 70 a missiologia possu\u00eda uma \u00eanfase eclesiol\u00f3gica localizada e pragm\u00e1tica. Avaliava-se na \u00e9poca a identidade da Igreja como comunidade respons\u00e1vel por transmitir o evangelho de Cristo por toda a terra. Esta \u00eanfase eclesiol\u00f3gica com aplicabilidade pastoral\/eclesi\u00e1stica definia a forma\u00e7\u00e3o da mentalidade evang\u00e9lica levando \u00e0 uma consci\u00eancia de quem n\u00f3s somos e para que fomos chamados. A parte das institui\u00e7\u00f5es mission\u00e1rias especializadas nas \u00e1reas de tradu\u00e7\u00e3o e servi\u00e7o social n\u00e3o participavam integralmente do af\u00e3 da Igreja e o treinamento mission\u00e1rio voltava-se mais para a conscientiza\u00e7\u00e3o da responsabilidade evangelistica do que para o m\u00e9todo ou estrat\u00e9gia mission\u00e1ria. Foi uma \u00e9poca de fundamenta\u00e7\u00e3o missiol\u00f3gica, a \u00e9poca dos conceitos, que preparou a Igreja dos pa\u00edses emergentes para a segunda d\u00e9cada.<\/p>\n<p>Nos anos 80 iniciou-se um processo centrado na an\u00e1lise e avalia\u00e7\u00e3o do campo mission\u00e1rio e notamos o que tenho chamado de \u201cEfeito PNA\u201d (Povos N\u00e3o Alcan\u00e7ados) fazendo com que Miss\u00f5es passasse a ter uma forma gr\u00e1fica e estat\u00edstica. Quem s\u00e3o os PNAs, onde est\u00e3o e como alcan\u00e7\u00e1-los. Surgiram os pesquisadores, os movimentos de categoriza\u00e7\u00e3o da prioridade mission\u00e1ria no mundo e a \u00eanfase na defini\u00e7\u00e3o do que seria a grande meta mission\u00e1ria da Igreja nos pr\u00f3ximos anos. Movimentos como AD 2.000, WEC International (AMEM), World Mission e outras dedicavam-se intensamente \u00e0 tarefa de definir o que era, onde estava e qual a chance de alcan\u00e7ar os grupos ainda intocados pelo evangelho. Definiu-se a janela 10X40, entendeu-se a dimens\u00e3o do desafio isl\u00e2mico, foi revelada a necessidade de investimento mission\u00e1rio entre o crescente grupo dos \u201cSem Religi\u00e3o\u201d e compreendeu-se melhor a permanente resist\u00eancia dos grupos animistas al\u00e9m do sempre presente perigo do sincretismo religioso. Era a d\u00e9cada da defini\u00e7\u00e3o da largura, extens\u00e3o e profundidade do restante n\u00e3o alcan\u00e7ado em nossa gera\u00e7\u00e3o e do que ainda precisava ser feito.<\/p>\n<p>Dois grandes passos haviam sido dados at\u00e9 ent\u00e3o: a fundamenta\u00e7\u00e3o de uma missiologia voltada para a identidade da Igreja e o estudo dos grupos alvos do esfor\u00e7o mission\u00e1rio. Neste \u00ednterim, atrav\u00e9s do massivo envio mission\u00e1rios nos anos 80, percebeu-se a exist\u00eancia de uma brecha entre o ideal mission\u00e1rio e a realiza\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria e assim entramos na d\u00e9cada seguinte com uma forte consci\u00eancia de que faltava algo.<\/p>\n<p>Nos anos 90, com a vis\u00e3o das limita\u00e7\u00f5es mission\u00e1rias, problemas frequentes de contextualiza\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o transcultural, limitada aplicabilidade das teologias b\u00edblicas em contexto inter-cultural e reduzido n\u00famero de igrejas aut\u00f3ctones entre os grupos rec\u00e9m alcan\u00e7ados, fomos levados a crer que a forma\u00e7\u00e3o missiol\u00f3gica, a descri\u00e7\u00e3o de nossa identidade funcional, princ\u00edpios e conceitos como Corpo chamado a fazer diferen\u00e7a na terra, era insuficiente perante o sonho de plantio de igrejas no restante intocado do planeta. Faltavam-nos instrumentos, preparo pr\u00e1tico, instru\u00e7\u00e3o sobre como fazer, tecnicabilidade; enfim, faltava-nos um manual sobre \u201ccomo fazer\u201d \u2013 treinamento mission\u00e1rio. Ao longo dos anos 90 nos rendemos \u00e0 conclus\u00e3o de que o grande desafio da d\u00e9cada, e possivelmente da d\u00e9cada seguinte, seria a prepara\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica, ortopr\u00e1tica e funcional de obreiros transculturais e assim passamos a falar em redefini\u00e7\u00e3o de curr\u00edculos, idealiza\u00e7\u00e3o de melhores treinamentos, funda\u00e7\u00e3o de novas escolas de Miss\u00f5es e toda a \u00eanfase voltou-se para a pessoa do mission\u00e1rio gerando tamb\u00e9m um aprofundamento nos crit\u00e9rios de aceita\u00e7\u00e3o, treinamento e envio de novos mission\u00e1rios. Fenomenologia da Religi\u00e3o, Antropologia Cultural, Fon\u00e9tica, Aprendizado de L\u00ednguas, Tradu\u00e7\u00e3o e Teologia de Miss\u00f5es ganharam \u00eanfase em v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es de ensino.<\/p>\n<p>Ao fim da d\u00e9cada de 90 a consci\u00eancia da necessidade de melhor forma\u00e7\u00e3o de obreiros foi captada de maneira geral entretanto ainda estudamos a melhor f\u00f3rmula de faz\u00ea-lo. Precisamos de mais pragmatismo em nossa compreens\u00e3o do caminho a tomar.<\/p>\n<p>Preju\u00edzo Hist\u00f3rico<\/p>\n<p>Vivemos em um preju\u00edzo hist\u00f3rico mission\u00e1rio como todos os pa\u00edses missiologicamente embrion\u00e1rios onde possu\u00edmos uma pequena leva de missi\u00f3logos para um grande n\u00famero de institui\u00e7\u00f5es de treinamento mission\u00e1rio onde a grande maioria de nossos professores n\u00e3o tiveram a oportunidade de serem expostos a um contexto transcultural mission\u00e1rio e por outro lado, o grosso dos nossos mission\u00e1rios mais experientes ainda encontram-se na ativa em diferentes campos. Este \u00e9 um preju\u00edzo hist\u00f3rico comum no momento que nos encontramos, basicamente vivendo a nossa segunda gera\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria. D.L. Zabunn, professor de missiologia no Betany Mission Seminariy na \u00c1frica do Sul afirma que normalmente apenas a partir da sexta gera\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria um pais passa a contar com um n\u00famero substancial de mission\u00e1rios envolvidos na forma\u00e7\u00e3o de novos obreiros e \u201cdevemos lembrar que mission\u00e1rios funcionalmente capazes em seus campos n\u00e3o s\u00e3o necessariamente missi\u00f3logos ou professores de miss\u00f5es\u201d . Pa\u00edses como a Cor\u00e9ia do Sul, Nova Zel\u00e2ndia, Austr\u00e1lia, Brasil e Tanz\u00e2nia vivem situa\u00e7\u00f5es parecidas do ponto de vista do preparo: a falta de uma ponte que una a realidade do desafio do campo mission\u00e1rio e a presente proposta de preparo missiol\u00f3gico.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que n\u00e3o podemos lidar com todas as implica\u00e7\u00f5es desta realidade hist\u00f3rica na qual nos encontramos entretanto creio que podemos minimizar seus efeitos. Precisamos definir nossas prioridades e limita\u00e7\u00f5es em nosso treinamento e forma\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria. Costumo afirmar que, pela \u00edndole evangel\u00edstica da Igreja brasileira, temos em nosso territ\u00f3rio um laborat\u00f3rio natural para a forma\u00e7\u00e3o de plantadores de igrejas. Somos uma na\u00e7\u00e3o etnicamente multicultural e nossas ra\u00edzes hist\u00f3rico\/culturais remontam a um passado menos distante que pa\u00edses com homogenia \u00e9tnica fazendo com que a chamada \u2018Expectativa Cultural\u201d seja menos gritante.<\/p>\n<p>Para minimizarmos os efeitos do preju\u00edzo hist\u00f3rico no qual nos encontramos creio que poder\u00edamos pensar e tentar enfatizar, sob as defini\u00e7\u00f5es de sua aplicabilidade funcional, tr\u00eas \u00e1reas da forma\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria as quais, pelo simples fato de serem comumente apontadas por obreiros provindos de \u2018novos pa\u00edses\u2019 como as principais barreiras na tentativa de uma verdadeira comunica\u00e7\u00e3o do evangelho em grupos mais isolados, constituem para mim o supra sumo da nossa car\u00eancia de treinamento integral. S\u00e3o elas a Antropologia Cultural, Teologia B\u00edblica e Aprendizado de L\u00ednguas.<\/p>\n<p>Antropologia Cultural<\/p>\n<p>Entendamos inicialmente a relev\u00e2ncia da Antropologia Cultural, ou \u201cAntropologia da Observa\u00e7\u00e3o Cultural\u201d como definia M. Stuart no in\u00edcio dos anos 50, na necess\u00e1ria tarefa de \u2018explorar a possibilidade da comunica\u00e7\u00e3o do evangelho a outro grupo que, culturalmente, possua outros padr\u00f5es de valores existenciais na transmiss\u00e3o de uma mensagem\u2019. Fala a respeito da possibilidade de real comunica\u00e7\u00e3o entre dois grupos distintos com diferentes (e as vezes divergentes) cosmovis\u00f5es.<\/p>\n<p>Respondendo a um mission\u00e1rio que fortemente indagava \u201cmas qual a aplicabilidade da Antropologia Cultural em meu minist\u00e9rio\u201d comecei a responder dizendo:<\/p>\n<p>\u201cA Antropologia Cultural, funcionalmente definindo, \u00e9 um instrumento de reconhecimento das perguntas existentes em certa cultura, socialmente interpretadas ou n\u00e3o pelo pr\u00f3prio grupo, entretanto necess\u00e1rias para se diagnosticar os pontos de tens\u00e3o socio-etnologico ali existente. Prov\u00ea as ferramentas necess\u00e1rias para o mapeamento cultural do grupo alvo atrav\u00e9s da defini\u00e7\u00e3o da hierarquia social, hierarquia socio-espiritual, express\u00f5es ritualisticas e cerimoniais, cosmologia, cosmovis\u00f5es e costumes, linguagem interativa e comunicabilidade. O alvo da antropologia cultural, missiologicamente falando, \u00e9 levantar as perguntas socialmente relevantes afim de receber respostas biblicamente centradas. O alvo final \u00e9 fomentar transforma\u00e7\u00e3o de vida e sociedade atrav\u00e9s de um evangelho que fa\u00e7a sentido na cultura receptora e n\u00e3o apenas na mente e cora\u00e7\u00e3o daquele que transmite.<\/p>\n<p>Como exemplo poder\u00edamos pensar sobre o tempo linear e c\u00edclico. Quando um povo animista possui toda a sua cosmologia definida pelo tempo c\u00edclico (baseado em acontecimentos que \u2018marcam\u2019 o tempo e necessariamente se repetem, n\u00e3o avan\u00e7am ou retrocedem) e n\u00e3o linear (como o nosso tempo ocidental que segue uma linha cont\u00ednua progressiva e n\u00e3o repetitiva) fazendo com que o dia 4 de julho de 1999 nunca venha a se repetir em nossos calend\u00e1rios, mentes e cosmologia, isto gera questionamentos socio-existenciais que precisam ser respondidos para a compreens\u00e3o, aceita\u00e7\u00e3o e viabilidade cultural do evangelho dentre o povo.<\/p>\n<p>Em termos pr\u00e1ticos, \u00e9 necess\u00e1rio saber quais s\u00e3o as perguntas (este \u00e9 o trabalho da Antropologia Cultural) antes de tentar respond\u00ea-las (Teologia b\u00edblica). Por exemplo, expor o evangelho numa perspectiva linear para um povo com cosmovis\u00e3o c\u00edclica ter\u00e1 um dos tr\u00eas poss\u00edveis resultados:<br \/>a) entend\u00ea-lo como uma mensagem alien\u00edgena e possivelmente aplic\u00e1vel apenas a uma cultura estrangeira;<br \/>b) entend\u00ea-lo parcialmente e tentar preencher os v\u00e1cuos deixados com respostas da religi\u00e3o materna; o que geraria sincretismo religioso;<br \/>c) n\u00e3o entend\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Deixando o simplismo \u00f3bvio com o qual estamos lidando seria necess\u00e1rio pensarmos, numa perspectiva do preju\u00edzo hist\u00f3rico no qual vivemos, quais seriam as \u00e1reas de estudo na Antropologia Cultural que fariam nossos mission\u00e1rios mais bem preparados para o grande desafio. Antes de prop\u00f4-las devo remarcar que estou partindo de um pressuposto de envolvimento cultural a n\u00edvel de M5 ou M6 e assim sendo, concentrando nossos pensamentos sobre o desafio principalmente entre os PNAs.<\/p>\n<p>Dentre as mais variadas \u00e1reas da Antropologia como Antropologia Cultural, Etnicismo, Etnologia, Costumes e Culturas, Fenomenologia Religiosa e Comunica\u00e7\u00e3o Social h\u00e1 duas altamente relevantes para nossos candidatos \u00e0 obra mission\u00e1ria transcultural que s\u00e3o Fenomenologia da Religi\u00e3o e Etnologia. A relev\u00e2ncia destas duas \u00e1reas de estudo deve-se mais \u00e0 observa\u00e7\u00e3o dos comuns erros de campo (inclusive e principalmente os meus) do que em uma tentativa de estruturar um curr\u00edculo ideal de conhecimento antropol\u00f3gico. Dentre estes \u2018erros comuns\u2019 h\u00e1 tr\u00eas que tem vindo \u00e0 tona quase sempre quando a comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 restritiva, parcial ou simplesmente ausente. Eles giram em torno da falta de compreens\u00e3o de que:<\/p>\n<p>1. Nem tudo o que \u00e9 diferente \u00e9 religioso<\/p>\n<p>Entre os Bassaris, tribo vizinha aos Konkombas com os quais trabalhamos, h\u00e1 um complexo ritual onde um composto de \u00e1gua e gordura \u00e9 derramado constantemente sobre o corpo de algu\u00e9m morto recentemente, usando-se uma cuia de madeira enquanto algumas palavras s\u00e3o ditas por uma pequena multid\u00e3o que se coloca ao redor. Pr\u00f3ximo dali \u00e9 acesa uma fogueira onde folhas verdes s\u00e3o queimadas enquanto um pouco de \u00e1gua \u00e9 aspergida sobre o fogo por pessoas ligadas \u00e0quele que morreu. Lendo um relato de um mission\u00e1rio que esteve entre eles 20 anos atr\u00e1s ele ao fim conclui: \u201c\u00c9 um ato de invoca\u00e7\u00e3o demon\u00edaca afim de pedir aos esp\u00edritos que guiem aquele que morreu\u201d. Nada mais longe da verdade.<\/p>\n<p>Apesar da tribo Bassari ser animista e estar debaixo de forte influ\u00eancia do mal, este ato em particular n\u00e3o passa de uma forma de conservar o corpo do morto durante os dias de espera pelos parentes de aldeias distantes. A \u00e1gua e gordura t\u00eam uma propriedade de retardar a decomposi\u00e7\u00e3o do corpo; a cuia \u00e9 usada porque n\u00e3o h\u00e1 panelas ou copos; a multid\u00e3o posta-se ao redor da fogueira porque \u00e9 assim que re\u00fanem-se todas as noites mesmo porqu\u00ea n\u00e3o h\u00e1 energia el\u00e9trica, e folhas verdes s\u00e3o queimadas (com um pouco de \u00e1gua sendo aspergida) afim de produzir bastante fuma\u00e7a e espantar os mosquitos. As palavras ditas s\u00e3o provavelmente os cumprimentos a cada pessoa que chega de outras aldeias para o funeral. Na verdade este n\u00e3o \u00e9 um ato religioso mas sim um processo cultural-cient\u00edfico, ou \u2018apenas um ato social\u2019 como diria Kenner.<\/p>\n<p>Denomino de \u2018neurose esp\u00edrito-fenomenol\u00f3gica\u2019 a tend\u00eancia que n\u00f3s mission\u00e1rios temos de analisar religiosamente todo e qualquer fen\u00f4meno interpretando-o como quem chegou para dissecar a religiosidade cultural sem entretanto ver o povo como uma sociedade que vive e n\u00e3o apenas cultua.<\/p>\n<p>2. Nem tudo o que \u00e9 cerimonial \u00e9 demon\u00edaco<\/p>\n<p>Duas posturas s\u00e3o destrutivas na a\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria para fins de comunica\u00e7\u00e3o: n\u00e3o crer na a\u00e7\u00e3o demon\u00edaca e crer que tudo \u00e9 a\u00e7\u00e3o demon\u00edaca. Afim de entender a diferen\u00e7a entre os dois pontos podemos usar o conhecimento missiol\u00f3gico, nossa teologia, observa\u00e7\u00e3o e sabedoria. Entretanto creio que nunca entenderemos a raiz do que \u00e9 diariamente posto \u00e0 nossa frente se do alto n\u00e3o nos for dado discernimento espiritual. Um fator agravante \u00e9 que os fen\u00f4menos religiosos em uma cultura rec\u00e9m alcan\u00e7ada devem ser entendidos e interpretados o mais cedo poss\u00edvel afim de ativar a comunica\u00e7\u00e3o aplicativa do Evangelho, o que nos for\u00e7a a tomar posi\u00e7\u00f5es interpretativas quanto a fen\u00f4menos locais muito cedo, quando ainda estamos pouco imersos culturalmente.<\/p>\n<p>Olhando ao redor do universo Konkomba poderia citar um grupo expressivo de fen\u00f4menos sociais ou religiosos que necessitam de um esfor\u00e7o de discernimento afim de identific\u00e1-los do ponto de vista espiritual como por exemplo a circuncis\u00e3o de rapazes quando passam para a idade adulta tornando-se \u2018ujaman\u2019 \u2013 homens; o corte da pele facial formando cicatrizes que apontam para o cl\u00e3 ao qual pertencem; a dan\u00e7a cerimonial ap\u00f3s a morte de algu\u00e9m; o banho de lama e \u00f3leo antes de um trabalho pesado ou longa viagem; a \u2018venda\u2019 das crian\u00e7as que nascem ap\u00f3s haver morte infantil na fam\u00edlia etc. Outros s\u00e3o claramente negativos mas igualmente carentes de interpreta\u00e7\u00e3o social como a morte e uma crian\u00e7a quando nascem g\u00eameos abandonando-a numa floresta a noite ou mesmo o sacrif\u00edcio de crian\u00e7as \u2018defeituosas\u2019 ou profundamente enfermas. Devemos entender que uma classifica\u00e7\u00e3o normativa (demon\u00edaco ou n\u00e3o demon\u00edaco) pode saciar nossa sede de defini\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas mas n\u00e3o s\u00e3o suficientes para alinhar um processo na \u00e9tica de uma igreja que nasce entre um grupo rec\u00e9m alcan\u00e7ado; h\u00e1 necessidade de uma interpreta\u00e7\u00e3o um pouco mais profunda levando em considera\u00e7\u00e3o que entre v\u00e1rios grupos (como animistas, hindus ou budistas) o comum n\u00e3o se dissocia do sagrado nem o material do espiritual havendo o que pode ser chamado, quase que paradoxalmente, de \u2018integra\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica\u2019. Nota-se na nossa \u00edndole brasileira uma tend\u00eancia exorcista onde n\u00e3o h\u00e1 demonismo e um conformismo espiritual quanto \u00e0 sua real atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>3. Nem tudo o que \u00e9 cultural \u00e9 puro<\/p>\n<p>Este \u00e9 o outro lado da moeda. O etnicismo defende a pureza natural das culturas intocadas o que pode em certa inst\u00e2ncia, influenciar a comunica\u00e7\u00e3o. Devemos ser sempre relembrados de que o pecado \u00e9 cultural. Ele n\u00e3o ocorre em um plano supra humano mas brota do cora\u00e7\u00e3o do homem envolto em seus conceitos e costumes, manifestando-se moldado \u00e0s circunst\u00e2ncias externas como l\u00edngua, costumes e meio ambiente e por fim caindo no mesmo abismo que foi aberto desde o in\u00edcio: a separa\u00e7\u00e3o entre o homem ca\u00eddo e o Deus santo. O pecado \u00e9 cultural, manifesta-se culturalmente e o homem, em sua cultura, necessita de reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre os povos isolados (meninas dos olhos dos antrop\u00f3logos etnicistas) n\u00e3o encontramos um para\u00edso de pureza cultural mas sim povos curvados ao inimigo, vivendo um inferno na terra e procurando quase desesperados alguma maneira de reden\u00e7\u00e3o, mesmo que tempor\u00e1ria. Procuram reden\u00e7\u00e3o nos sacrif\u00edcios, \u00eddolos, amuletos, tabus, magias, rituais demon\u00edacos e penit\u00eancias. Entendo que a reden\u00e7\u00e3o est\u00e1 em Jesus, a mensagem \u00e9 o Evangelho e entreg\u00e1-la a outros chama-se Miss\u00f5es.<\/p>\n<p>Teologia B\u00edblica<\/p>\n<p>Teologia b\u00edblica \u00e9 um termo que deve ser pr\u00e9 conceituado antes de prosseguirmos. Utilizo-o sob o pressuposto tem\u00e1tico. N\u00e3o se trata portanto de ramos teol\u00f3gicos, teologia sistem\u00e1tica ou de teologia verdadeiramente b\u00edblicas mas simplesmente da sistematiza\u00e7\u00e3o b\u00edblico-tem\u00e1tica de assuntos espec\u00edficos, como \u2018teologia de anjos\u2019, \u2018teologia de pecado\u2019 ou \u2018teologia de sofrimento\u2019: um estudo b\u00edblico tem\u00e1tico vetero e neotestament\u00e1rio. Definindo o termo, sigamos em frente.<\/p>\n<p>A Antropologia Cultural tem como miss\u00e3o mapear, localizar e fazer as perguntas certas. Se olharmos para o Brasil, por exemplo, veremos um grande n\u00famero de igrejas e pregadores que prov\u00eaem diariamente respostas (muitas delas corretas teologicamente) para perguntas que nunca s\u00e3o feitas. Poucos interessam-se em estudar e compreender sobre c\u00e2ncer nos ossos quando na verdade o que os aflige \u00e9 uma terr\u00edvel gastrite. Esta \u00e9 a primeira instru\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica cultural na abordagem de um novo grupo social: descubra as perguntas certas.<\/p>\n<p>Denomina\u00e7\u00f5es que, em pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, tem apresentado uma teologia de \u2018prosperidade e sofrimento\u2019 ou mesmo de \u2018b\u00ean\u00e7\u00e3o e maldi\u00e7\u00e3o\u2019 (apenas para ficar em dois exemplos) tem achado p\u00fablico; n\u00e3o necessariamente pela seriedade das respostas (muitas s\u00e9rias e outras n\u00e3o) mas sim pela identifica\u00e7\u00e3o das perguntas. Em um superficial mapeamento cultural realizado em pa\u00edses socialmente existenciais como o Brasil facilmente ver\u00edamos que duas claras perguntas na mente do povo s\u00e3o: \u201cPorqu\u00ea sofremos ?\u201d e \u201cComo melhoraremos ?\u201d<\/p>\n<p>Entretanto localizar as perguntas certas n\u00e3o pressup\u00f5e sucesso na comunica\u00e7\u00e3o do evangelho. \u00c9 necess\u00e1rio apresentar as respostas certas. Alerta: n\u00e3o as respostas que ir\u00e3o surtir efeito, satisfazer a alma ou gerar impacto individual e social: mas sim respostas biblicamente certas.<\/p>\n<p>Dar respostas certas \u00e0s perguntas certas normalmente \u00e9 uma tarefa conflitante. Aqueles que o fizeram, j\u00e1 no primeiro s\u00e9culo, foram apedrejados, expulsos, perseguidos, denominados de \u2018peste\u2019 e \u2018transtornadores\u2019. Para aqueles que pensam que uma genu\u00edna e culturalmente coerente exposi\u00e7\u00e3o do evangelho redundar\u00e1 necessariamente em um positivo impacto social al\u00e9m de muitos frutos, precisamos ser relembrados que n\u00e3o se define Miss\u00f5es em termos de resultados mas sim de fidelidade ao Senhor. A quest\u00e3o final para a apresenta\u00e7\u00e3o de uma teologia b\u00edblica que responda \u00e0 pergunta do cora\u00e7\u00e3o do homem em sua cultura e l\u00edngua n\u00e3o s\u00e3o os resultados humanos mas sim fidelidade ao Senhor e \u00e0 Sua Palavra.<\/p>\n<p>Nesta altura h\u00e1 duas verdades \u00f3bvias quanto ao treinamento mission\u00e1rio: primeiramente nossos candidatos \u00e0 obra mission\u00e1ria precisam ser preparados biblicamente. Estudar a Palavra, conhec\u00ea-la, pesquis\u00e1-la textualmente, contextualmente e tematicamente. Investir em um bom preparo b\u00edblico \u00e9 investir diretamente no campo. Em segundo lugar precisamos entender que a fidelidade transp\u00f5e a habilidade. Neste momento o car\u00e1ter crist\u00e3o deveria ser a mais enf\u00e1tica disciplina em nossos cursos de forma\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria. Como um car\u00e1ter \u00e0 imagem de Cristo n\u00e3o pode ser forjado simplesmente em salas de aula precisamos urgentemente de discipuladores entre nossos professores de miss\u00f5es.<\/p>\n<p>Uma grande descoberta pessoal tem sido a prim\u00e1ria import\u00e2ncia do car\u00e1ter do mission\u00e1rio acima de sua habilidade de comunicar inteligivelmente o evangelho transpondo barreiras lingu\u00edsticas, culturais, missiol\u00f3gicas etc.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s tr\u00eas anos entre os Konkombas, quando a Igreja crescia rapidamente e o Evangelho alcan\u00e7ava lugares remotos perguntei aos l\u00edderes locais certa vez sobre a raz\u00e3o, principal, que colaborava para a nossa boa comunica\u00e7\u00e3o, mencionando tr\u00eas op\u00e7\u00f5es:<br \/>1. Habilidade de falar no dialeto local e ser entendido com facilidade;<br \/>2. Entendimento cultural, dos costumes e forma de vida Konkomba;<br \/>3. Envolvimento pessoal com a sociedade tribal, sendo aceito e aceitando-a;<\/p>\n<p>Eles ent\u00e3o responderam: \u201cO ponto mais importante para nosso povo parar para ouvi-lo \u00e9 porque voc\u00ea sempre sorri quando nos v\u00ea, parando para nos cumprimentar e sempre alegre em ouvir\u201d. Naquele dia escrevi em meu di\u00e1rio: \u201ccar\u00e1ter \u00e9 mais importante que habilidade\u201d.<\/p>\n<p>Segundo Hustmann a hist\u00f3ria das miss\u00f5es se divide em tr\u00eas partes quanto ao conhecimento antropol\u00f3gico e aplicabilidade de teologia b\u00edblica. Na etapa em que nos encontramos os erros antropol\u00f3gicos residem, n\u00e3o na falta do conhecimento mas na falta da disposi\u00e7\u00e3o em aplicar o conhecimento. Em suma, um n\u00famero reduzido de mission\u00e1rios erra hoje, em um n\u00edvel b\u00e1sico de comunica\u00e7\u00e3o, devido \u00e0 falta de entendimento da cultura ou conhecimento b\u00edblico. Os grandes erros de comunica\u00e7\u00e3o s\u00e3o conseq\u00fc\u00eancia de uma decis\u00e3o em n\u00e3o aplicar o conhecimento adquirido. Problema de car\u00e1ter, n\u00e3o de estudo.<\/p>\n<p>Este princ\u00edpio \u00e9 tamb\u00e9m aplic\u00e1vel em todo um universo de exist\u00eancia mission\u00e1ria onde a grande maioria dos obreiros que voltam for\u00e7osamente do campo o fazem devido a problemas de relacionamento enquanto um pequeno \u00edndice apontaria para a falta de habilidade em aculturar-se. Car\u00e1ter, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e9 o fator primordial que define relacionamentos, e relacionamentos (citando Abdulai Syin ) definem a pressuposi\u00e7\u00e3o social de aceita\u00e7\u00e3o ou rejei\u00e7\u00e3o da mensagem que ser\u00e1 pregada. Isto implicaria no fato de que, mesmo sendo o evangelho o poder de Deus, este Deus deseja que n\u00f3s que o transmitimos, o fa\u00e7amos com fidelidade de vida e n\u00e3o apenas de conhecimento.<\/p>\n<p>No universo Konkomba o julgamento de car\u00e1ter precede a mensagem. A tribo ter\u00e1 disposi\u00e7\u00e3o em ouvir aqueles que julga serem \u2018mbamon\u2019, palavra que significa algo como \u2018altru\u00edsta\u2019 ou \u2018verdadeiro\u2019, t\u00edtulo dado a homens e mulheres que, atrav\u00e9s de suas vidas e relacionamentos, s\u00e3o confi\u00e1veis o suficiente para serem ouvidos pelo grupo. N\u00e3o se recebe o t\u00edtulo de \u2018mbamon\u2019 instantaneamente mas atrav\u00e9s de um processo de relacionamento interpessoal que espera-se ser mais prolongado quando trata-se de um estrangeiro. Obviamente falar e compreender a l\u00edngua, morar com o povo e participar dos eventos importantes da tribo criam o ambiente para que o grupo tribal o estude e veja \u2018suas rea\u00e7\u00f5es quando irado ou provocado\u2019, diz um prov\u00e9rbio Konkomba que fala sobre os passos para a aceita\u00e7\u00e3o social. Entretanto eu diria que 70% da aceitabilidade e credibilidade dada a um mission\u00e1rio em uma outra cultura, para citar o nosso contexto transcultural, reside no julgamento do car\u00e1ter a partir do relacionamento interpessoal e n\u00e3o da habilidade cultural. Esta institucionaliza\u00e7\u00e3o da aceitabilidade do mensageiro e sua mensagem n\u00e3o pode ser vista de maneira formal e sistematizada na grande maioria dos grupos sociais (atrav\u00e9s de cerim\u00f4nias ou ritos por exemplo) entretanto permanece o princ\u00edpio de que, apesar da mensagem ir al\u00e9m do mensageiro, a credibilidade do conte\u00fado da mensagem ser\u00e1 avaliada pelo grupo a partir do car\u00e1ter do mensageiro.<\/p>\n<p>Aprendizagem de L\u00ednguas<\/p>\n<p>O aprendizado de l\u00ednguas, juntamente \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o da Palavra, \u00e9 uma \u00e1rea de gritante necessidade de aten\u00e7\u00e3o em nossos cursos de forma\u00e7\u00e3o de obreiros transculturais. Primeiramente pela \u00f3bvia necessidade do obreiro transcultural aprender uma nova l\u00edngua para sobreviver, se relacionar e expor o evangelho, enfim: comunicar-se. O segundo motivo possui uma gravidade extra, e tamb\u00e9m hist\u00f3rica. Quando pensamos sobre o grupo que identificamos como PNAs (Povos N\u00e3o Alcan\u00e7ados) surge uma pergunta crucial: \u201cPorqu\u00ea os PNAs permanecem n\u00e3o alcan\u00e7ados ainda em nossos dias ?\u201d Seria pela falta de conhecimento etnol\u00f3gico: quem eles s\u00e3o, quantos s\u00e3o, onde est\u00e3o e como chegar at\u00e9 eles ?<\/p>\n<p>Na verdade o motivo circula ao redor de barreiras humanas. Fala-se que 80% dos povos considerados n\u00e3o alcan\u00e7ados j\u00e1 eram bem conhecidos mais de 10 anos atr\u00e1s e constavam na lista de diferentes ag\u00eancias e juntas mission\u00e1rias ao redor do mundo. Se ainda permanecem n\u00e3o alcan\u00e7ados, isto deve-se \u00e0 exist\u00eancia de barreiras que os mant\u00e9m dentro de uma retoma quase intoc\u00e1vel. Estas barreiras s\u00e3o ling\u00fc\u00edsticas, antropol\u00f3gicas, missiol\u00f3gicas, pol\u00edticas, geogr\u00e1ficas, religiosas e espirituais.<\/p>\n<p>Pela sele\u00e7\u00e3o natural quanto aos povos a serem alcan\u00e7ados ao longo das d\u00e9cadas, os que permanecem n\u00e3o alcan\u00e7ados neste fim de mil\u00eanio podem ser considerados o \u2018remanescente mais dif\u00edcil\u2019. Grande parte destes PNAs j\u00e1 sofreram algum tipo de tentativa de contato mission\u00e1rio ou exposi\u00e7\u00e3o do evangelho no passado, sem sucesso, colocando-os na categoria de \u2018mais dif\u00edceis\u2019 em algum n\u00edvel, e muitos deles a n\u00edvel ling\u00fc\u00edstico.<\/p>\n<p>Um exemplo simples poderia ser dado quanto \u00e0s tribos ao norte de Gana na \u00c1frica. Aquelas que permanecem n\u00e3o alcan\u00e7adas s\u00e3o nitidamente as que possuem l\u00ednguas mais complexas, s\u00e3o culturalmente mais isoladas, influenciadas pelo Isl\u00e3 ou habitam regi\u00f5es geograficamente mais isoladas. As mais resistentes ao evangelho, direta ou indiretamente, formam hoje o seleto grupo de PNAs e isto coloca um peso extra na responsabilidade de formar hoje a for\u00e7a mission\u00e1ria.<\/p>\n<p>Quando falamos sobre Aprendizagem de L\u00ednguas estamos tratando sobre um ponto vital na comunica\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria. Em m\u00e9dia o mission\u00e1rio que envolve-se com um grupo pouco evangelizado fora do nosso pa\u00eds necessitar\u00e1, no m\u00ednimo, de aprender duas novas l\u00ednguas: a primeira delas chamamos de \u2018b\u00e1sica\u2019 (ingl\u00eas, franc\u00eas, \u00e1rabe etc) que ser\u00e1 usada para se estabelecer em um novo pa\u00eds onde habita o grupo alvo; a segunda delas chamamos \u2018missiol\u00f3gica\u2019 e \u00e9 justamente a l\u00edngua ou dialeto do grupo alvo. Em muitas circunst\u00e2ncias o grupo alvo pode usar mais de uma l\u00edngua ou dialeto criando novas ramifica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>H\u00e1 portanto grande necessidade de investirmos a n\u00edvel lingu\u00edstico-pr\u00e1tico na forma\u00e7\u00e3o de nossos obreiros transculturais: enfatizar um bom curso de aprendizagem de l\u00ednguas; exp\u00f4-los \u00e0 uma segunda l\u00edngua, desafi\u00e1-los a romper a barreira da adapta\u00e7\u00e3o ling\u00fc\u00edstica, ensinar-lhes fon\u00e9tica, fonologia, morfologia e conceitos de tradu\u00e7\u00e3o da Palavra, mesmo que informal e para transmiss\u00e3o verbal do evangelho. Enfim, dar-lhes as ferramentas.<\/p>\n<p>Do ponto de vista ling\u00fc\u00edstico h\u00e1 uma grande diferen\u00e7a entre o ideal mission\u00e1rio e a realidade mission\u00e1ria. Um exemplo pessoal. Quando chegamos em Gana fomos desafiados a trabalhar com um grupo conhecido como \u2018Konkombas\u2019 que, segundo os registros, falavam uma varia\u00e7\u00e3o de 4 ou 5 dialetos. Chegando at\u00e9 eles e conhecendo-os de perto vemos hoje que \u2018Konkombas\u2019 \u00e9 apenas uma express\u00e3o estrangeira sendo esta uma palavra totalmente desconhecida e sem sentido para a pr\u00f3pria tribo. Tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o uma tribo mas algo que poder\u00edamos chamar de \u2018Na\u00e7\u00e3o Tribal\u2019: um agrupamento de etnias irm\u00e3s sem concentra\u00e7\u00e3o social mas com interesses comuns, onde s\u00e3o faladas 23 l\u00ednguas e 64 dialetos diferentes, apenas dentre os grupos e sub grupos que conseguimos estudar. N\u00f3s hoje trabalhamos com 1 destes 23 grupos (que para facilitar a comunica\u00e7\u00e3o no Brasil continuamos a tratar como \u2018Konkombas\u2019) que se auto-entitula Bimonkpelnn onde s\u00e3o falados 9 diferentes dialetos, alguns t\u00e3o distantes ao ponto de necessitarmos em m\u00e9dia de tr\u00eas int\u00e9rpretes a cada culto, apenas entre os \u2018Bimonkpelnn\u2019. A realidade n\u00e3o rom\u00e2ntica do campo for\u00e7a-nos a investir na forma\u00e7\u00e3o ling\u00fc\u00edstica de nossos obreiros pois as barreiras existem para serem ultrapassadas e foi-nos confiada esta tarefa.<\/p>\n<p>Forma\u00e7\u00e3o missiol\u00f3gica ou Treinamento mission\u00e1rio ?<\/p>\n<p>Gostaria de concluir propondo fazermos uma diferencia\u00e7\u00e3o curricular entre forma\u00e7\u00e3o missiol\u00f3gica e treinamento mission\u00e1rio.<\/p>\n<p>Uma diferen\u00e7a inicial e a mais vis\u00edvel seria de Objetivo. A primeira tem como alvo formar missi\u00f3logos, pensadores dos princ\u00edpios que regem a miss\u00e3o, entre os quais est\u00e3o muitos pastores e v\u00e1rios professores de miss\u00f5es al\u00e9m de executivos de ag\u00eancias mission\u00e1rias. Estes precisam compreender, visualizar e tra\u00e7ar estrat\u00e9gias. J\u00e1 o Treinamento mission\u00e1rio tem como alvo aqueles que em um certo momento ver-se-\u00e3o na linha de frente face a face com um povo, na\u00e7\u00e3o, grupo social ou etnia com os quais precisar\u00e3o se relacionar passando por todo o processo de intera\u00e7\u00e3o social com a finalidade de, ap\u00f3s muitas fronteiras serem cruzadas, propor-lhes o evangelho. Estes tamb\u00e9m precisam compreender, visualizar e criar estrat\u00e9gias mas \u00e9 necess\u00e1rio ir al\u00e9m. Precisam de ferramentas pr\u00e1ticas com as quais trabalhar. N\u00e3o basta saber da exist\u00eancia de l\u00ednguas foneticamente complexas, \u00e9 necess\u00e1rio aprender como articul\u00e1-las; n\u00e3o basta conhecer os exemplos cl\u00e1ssicos de diferen\u00e7as culturais, \u00e9 preciso conhecer o m\u00e9todo de mape\u00e1-las; n\u00e3o \u00e9 suficiente apenas o conhecimento missiol\u00f3gico de exposi\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica do evangelho, \u00e9 preciso saber como fazer. O treinamento mission\u00e1rio precisa ir al\u00e9m da forma\u00e7\u00e3o missiol\u00f3gica da mesma forma que um m\u00e9dico, al\u00e9m de anos de estudo e conhecimento precisa realizar a \u2018resid\u00eancia m\u00e9dica\u2019 e se especializar antes de estar h\u00e1bil a ir ao campo de trabalho.<\/p>\n<p>O missi\u00f3logo se satisfaz quando encontra a resposta da sua pergunta, mas o mission\u00e1rio precisa testar a resposta no campo e v\u00ea-la funcionar. Os que precisam de forma\u00e7\u00e3o missiol\u00f3gica tem os olhos voltados para a sistematiza\u00e7\u00e3o enquanto os que procuram um treinamento mission\u00e1rio atentam para a aplicabilidade.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio caminhar. Implementar e traduzir para a realidade das nossas escolas de miss\u00f5es os desafios que conhecemos. Seja na forma\u00e7\u00e3o de missi\u00f3logos ou no treinamento mission\u00e1rio que seja visto em n\u00f3s, miss\u00f5es brasileiras, o genu\u00edno car\u00e1ter de Cristo. Isto revelar\u00e1 que n\u00e3o apenas conhecemos o caminho, mas tamb\u00e9m andamos por ele. Deus nos aben\u00e7oe.&#8217;, &#8221;, 1, 3, 0, 7, &#8216;2007-01-25 18:20:36&#8217;, 62, &#8216;Ronaldo Lid\u00f3rio&#8217;, &#8216;2007-12-04 11:00:52&#8217;, 62, 0, &#8216;0000-00-00 00:00:00&#8217;, &#8216;2007-01-25 18:20:04&#8217;, &#8216;0000-00-00 00:00:00&#8217;, &#8221;, &#8221;, &#8216;pageclass_sfx=\\nback_button=\\nitem_title=1\\nlink_titles=\\nintrotext=1\\nsection=0\\nsection_link=0\\ncategory=0\\ncategory_link=0\\nrating=\\nauthor=\\ncreatedate=\\nmodifydate=\\npdf=\\nprint=\\nemail=\\nkeyref=\\ndocbook_type=&#8217;, 3, 0, 53, &#8221;, &#8221;, 0, 12636), (20, &#8216;John Stott exp\u00f5e a Miss\u00e3o a partir de Antioquia&#8217;, &#8216;John Stott exp\u00f5e a Miss\u00e3o a partir de Antioquia&#8217;, &#8216;Em Atos 13 o horizonte de Lucas se alarga pois o nome de Jesus seria massivamente testemunhado al\u00e9m da Jud\u00e9ia e Samaria. A partir de Antioquia chegaria aos confins da terra. Os dois di\u00e1conos evangelistas prepararam o caminho. Estev\u00e3o atrav\u00e9s de seu ensino e mart\u00edrio, Filipe atrav\u00e9s de sua evangeliza\u00e7\u00e3o ousada junto aos samaritanos e ao et\u00edope. O mesmo efeito tiveram as duas principais convers\u00f5es relatadas por Lucas, a de Saulo, que tamb\u00e9m fora comissionado a ser o ap\u00f3stolo dos gentios, e a de Corn\u00e9lio, atrav\u00e9s do ap\u00f3stolo Pedro. Evangelistas an\u00f4nimos tamb\u00e9m pregaram o evangelho aos \u201chelenistas\u201d em Antioquia. Mas sempre a a\u00e7\u00e3o esteve limitada \u00e0 Palestina e \u00e0 S\u00edria. Ningu\u00e9m tinha tido a vis\u00e3o de levar as boas novas \u00e0s na\u00e7\u00f5es al\u00e9m mar, apesar de Chipre ter sido mencionada em Atos 11:19. Agora, finalmente, vai ser dado esse passo significativo.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o cosmopolita de Antioquia se refletia nos membros de sua igreja e at\u00e9 mesmo em sua lideran\u00e7a, que consistia em cinco profetas e mestres que moravam na cidade. Lucas n\u00e3o explica a diferen\u00e7a entre esses minist\u00e9rios, nem se todos os cinco exerciam ambos os minist\u00e9rios ou se os primeiros tr\u00eas eram profetas e os \u00faltimos dois mestres. Ele s\u00f3 nos d\u00e1 os seus nomes. O primeiro era Barnab\u00e9, que foi descrito com \u201cum levita, natural de Chipre\u201d (Atos 4:36). O segundo era Sime\u00e3o que tinha o sobrenome de N\u00edger, que significa Negro, provavelmente um africano e supostamente ningu\u00e9m menos que Sim\u00e3o Cireneu, que carregou a cruz para Jesus. O terceiro era L\u00facio de Cirene e alguns conjecturam que Lucas se referia a si mesmo o que \u00e9 muito improv\u00e1vel j\u00e1 que ele preserva seu anonimato em todo o livro. Havia tamb\u00e9m Mana\u00e9m, em grego chamado o \u201csyntrophos\u201d de Herodes o tetrarca, isto \u00e9, de Herodes Antipas, filho de Herodes o Grande. A palavra pode significar que Mana\u00e9m foi \u201ccriado\u201d com ele de forma geral ou mais especificamente que era seu irm\u00e3o de leite. O quinto l\u00edder era Saulo. Estes cinco homens simbolizavam a diversidade \u00e9tnica e cultural de Antioquia e da pr\u00f3pria igreja.<\/p>\n<p>Foi quando eles estavam \u201csevindo ao Senhor, e jejuando\u201d que o Esp\u00edrito Santo lhes disse: \u201cseparai-me agora a Barnab\u00e9 e a Saulo para a obra a que os tenho chamado\u201d (At.13:2). Algumas perguntas precisam ser respondidas.<\/p>\n<p>1. A quem o Esp\u00edrito Santo revelou a sua vontade ? Quem eram \u201celes\u201d, as pessoas que estavam jejuando e orando ?<\/p>\n<p>Parece-me improv\u00e1vel que devamos restringi-los ao pequeno grupo dos cinco l\u00edderes, pois isso implicaria em tr\u00eas deles serem instru\u00eddos acerca dos outros dois. \u00c9 mais prov\u00e1vel que se referia aos membros da igreja como um todo j\u00e1 que eles e os l\u00edderes s\u00e3o mencionados juntos no vers\u00edculo 1 de Atos 13. Tamb\u00e9m em Atos 14:26-27, quando Paulo e Barnab\u00e9 retornam eles prestam conta a toda a igreja por terem sido comissionados por ela. Possivelmente Paulo e Barnab\u00e9 j\u00e1 possu\u00edam anterior convic\u00e7\u00e3o do chamado de Deus e esta verdade foi aqui revelada para toda a igreja.<\/p>\n<p>2. Qual o conte\u00fado da revela\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo \u00e0 Igreja em Antioquia ?<\/p>\n<p>Foi algo muito vago e possivelmente nos ensina que devemos nos contentar com as instru\u00e7\u00f5es de Deus para o dia de hoje. A instru\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo foi \u201cseparai-me agora a Barnab\u00e9 e a Saulo para a obra a que os tenho chamado\u201d, muito semelhante ao chamado de Abr\u00e3o: \u201cvai para a terra que te mostrarei\u201d. Na verdade em ambos os casos o chamado era claro mas a terra e o pa\u00eds n\u00e3o.<\/p>\n<p>Precisamos observar tamb\u00e9m que tanto Abr\u00e3o como Saulo e Barnab\u00e9 precisariam, para obedecerem a Deus, darem um passo de f\u00e9.<\/p>\n<p>3. Como foi revelado o chamado de Deus ?<\/p>\n<p>N\u00e3o sabemos. O mais prov\u00e1vel \u00e9 que Deus tenha falado \u00e0 igreja atrav\u00e9s de um de seus profetas. Mas seu chamado tamb\u00e9m poderia ter sido interno e n\u00e3o externo, ou seja, atrav\u00e9s do testemuho do Esp\u00edrito em seus cora\u00e7\u00f5es e mentes. Independente de como o receberam, a primeira rea\u00e7\u00e3o deles foi a de orar e jejuar, em parte, ao que parece, para testar o chamado de Deus e em parte para interceder pelos dois que seriam enviados. Notamos que o jejum n\u00e3o \u00e9 mencionado isoladamente. Ele \u00e9 ligado ao culto e \u00e0 ora\u00e7\u00e3o, pois raras vezes, ou nunca, o jejum \u00e9 um fim em si mesmo. O jejum \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o negativa em rela\u00e7\u00e3o a uma fun\u00e7\u00e3o positiva. Ent\u00e3o jejuando e orando, ou seja, prontos para a obedi\u00eancia, \u201cimpondo sobre eles as m\u00e3os os despediram\u201d.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o era uma ordena\u00e7\u00e3o ao minist\u00e9rio muito menos uma nomea\u00e7\u00e3o para o apostolado j\u00e1 que Paulo insiste que seu apostolado n\u00e3o era da parte de homens, mas sim uma despedida, comissionando-os para o servi\u00e7o mission\u00e1rio.<\/p>\n<p>4. Quem comissionou os mission\u00e1rios?<\/p>\n<p>De acordo com Atos 13:4 Barnab\u00e9 e Saulo foram enviados pelo Esp\u00edrito Santo que anteriormente havia instru\u00eddo a igreja no sentido de separ\u00e1-los para ele. Mas de acordo com o vers\u00edculo seguinte foi a igreja que, ap\u00f3s a imposi\u00e7\u00e3o de m\u00e3os, os despediu. \u00c9 verdade que o ultimo verbo pode ser entendido como \u201cdeixou-os ir\u201d, livrando-os de suas responsabilidades de ensino na igreja, pois \u00e0s vezes Lucas usa o verbo \u201cadulou\u201d no sentido de soltar. Mas ele tamb\u00e9m o usa no sentido de dispensar. Portanto creio que seria certo dizer que o Esp\u00edrito os enviou instruindo a igreja a faz\u00ea-lo e que a igreja os enviou, por ter recebido instru\u00e7\u00f5es do Esp\u00edrito. Esse equil\u00edbrio \u00e9 sadio e evita ambos os extremos. O primeiro \u00e9 a tend\u00eancia para o individualismo pelo qual uma pessoa alega dire\u00e7\u00e3o pessoal e direta do Esp\u00edrito sem nenhuma referencia \u00e0 igreja. O segundo \u00e9 a tend\u00eancia para o institucionalismo, pelo qual todas as decis\u00f5es s\u00e3o tomadas pela igreja sem nenhuma referencia ao Esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Conclus\u00e3o<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 ind\u00edcios para crermos que Saulo e Barnab\u00e9 eram volunt\u00e1rios para o trabalho mission\u00e1rio. Eles foram enviados pelo Esp\u00edrito atrav\u00e9s da igreja. Portanto cabe a toda igreja local, e em especial aos seus l\u00edderes, ser sens\u00edvel ao Esp\u00edrito Santo, a fim de descobrir a quem ele est\u00e1 concedendo dons ou chamado.<\/p>\n<p>Chamado mission\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 um ato volunt\u00e1rio, \u00e9 uma obedi\u00eancia \u00e0 vis\u00e3o do Senhor.<br \/>Assim precisamos evitar o pecado da omiss\u00e3o ao deixarmos de enviar ao campo aqueles irm\u00e3os com clara convic\u00e7\u00e3o de que foram chamados por Deus, bem como a precipita\u00e7\u00e3o de o fazermos com outros que possuem os dons para tal, mas sem confirma\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito \u00e0 igreja.<\/p>\n<p>O equil\u00edbrio \u00e9 ouvir o Esp\u00edrito, obedec\u00ea-lo e fazer da igreja local um ponto de partida para os confins da terra.<\/p>\n<p>John R. W. Stott \u00e9 conhecido pregador e estudioso da Palavra. Pastoreou por v\u00e1rios anos a Igreja de All Souls em Londres. \u00c9 diretor do London Institute for Contemporary Christianity e autor de diversos livros como \u201cA mensagem do serm\u00e3o do Monte\u201d, \u201cA mensagem de Ef\u00e9sios\u201d e \u201cCrer \u00e9 tamb\u00e9m Pensar\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Desafio do Preparo Mission\u00e1rio em um Contexto de Preju\u00edzo Hist\u00f3rico Para entendermos os crit\u00e9rios das mudan\u00e7as na \u00e1rea de ensino missiol\u00f3gico em todo o mundo nos \u00faltimos 30 anos precisamos estudar as tend\u00eancias teol\u00f3gicas presentes em cada contexto. A grosso modo ver\u00edamos que nos anos 70 a missiologia possu\u00eda uma \u00eanfase eclesiol\u00f3gica localizada e pragm\u00e1tica. 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