Critérios, limitações e responsabilidade

O plantio de igrejas é a forma mais eficaz e duradoura de perpetuar o Evangelho em uma sociedade local. Se plantar igrejas por um lado é uma ação desejável e escriturística, por outro carece de orientação teológica.

Percebo que a má compreensão sobre o assunto está enraizada na má compreensão da Igreja em si, sua natureza e identidade. Devemos nos lembrar de que:

► A Igreja é a comunidade dos redimidos, foi originada por Deus e pertence a Deus (1 Co. 1:1-2).

► A Igreja não é uma sociedade alienante. Aqueles que foram redimidos por Cristo continuam sendo homens e mulheres, pais e filhos, fazendeiros e comerciantes, os quais respiram e levam o Evangelho onde estiverem (1 Co 6:12-20).

► A Igreja é uma comunidade sem fronteiras, portanto fatalmente missionária (Rm. 15: 18-19).

► A vida da Igreja, acompanhada das Escrituras, é um grande testemunho para o mundo perdido. É necessário, portanto, que preguemos um Evangelho que faça sentido tanto dentro como fora do templo (Jo. 14:26; 16:13-15).

► A missão maior da Igreja é glorificar a Deus (1 Co. 6:20; Rm. 16:25-27).

Precisamos compreender que no plantio de igrejas tanto o pragmatismo imprudente quanto a inércia na evangelização são preocupantes.

A Igreja do Espírito Santo em Gana, por exemplo, é um movimento de plantio de igrejas que se desenvolve rapidamente no sul daquele país e agora envia obreiros para além-fronteiras, também com grandes resultados. Alguns anos atrás, seu fundador convidou diversas instituições cristãs no país para o dia de apresentação daquele ministério e, ao fim, declarou ser, ele mesmo, a encarnação do Espírito Santo na terra. Nem tudo o que demonstra aparente funcionalidade é bíblico.

Por outro lado, devemos cuidar para não sermos tomados por um orgulho narcisista-qualitativo como se o número reduzido de convertidos no processo evangelístico fosse evidência de que, ao contrário dos outros, somos bíblicos. Essa postura pode ser também fruto de soberba e incoerência com os fundamentos bíblicos da evangelização.

Não interessa o que mais um plantador de igrejas faça, ele precisa proclamar o Evangelho. O trabalho social, ministério holístico e compreensão cultural jamais irão substituir a clara comunicação do Evangelho ou justificar a presença da Igreja.

Creio que o conteúdo do Evangelho exposto em todo e qualquer ministério de plantio de igrejas deve incluir: Deus como Ser Criador e Soberano (Ef. 1:3-6); O pecado como fonte de separação entre o homem e Deus (Ef. 2:5); Jesus, Sua cruz e ressurreição como o plano histórico, único e central de Deus para redenção do homem (Hb. 1:1-4); O Espírito Santo, Parakletos – acompanhante – como o cumprimento da Promessa e encarregado de conduzir a Igreja até o dia final.

O marasmo observado no plantio de novas igrejas, normalmente se dá devido a alguns fatores recorrentes:

► A dificuldade de se distinguir igreja e templo, perdendo assim o valor do discipulado e gerando estruturas físicas pesadas demais que demandem excessivo recurso pessoal e financeiro, além de tempo, para sua manutenção.

► A elitização do processo de plantio de igrejas, tornando-o uma ação praticada puramente pelos ministros e sem participação dos leigos.

► A despreocupação com os fundamentos teológicos e atração pelos mecanismos puramente pragmáticos, ajuntando grupos sem uma verdadeira identidade cristã.

► A ausência da evangelização abundante, sob a segura desculpa da procura pela qualidade pessoal e teológica.

► A ausência de sensibilidade social e cultural perante o sofrimento e diversidade humana, pregando assim um Evangelho alienado da realidade daquele que o ouve.

► A despreocupação com a oração e uma vida séria com Deus.

► A ausência de planejamento ativo para plantar igrejas, de forma metódica e zelosa, por parte das igrejas locais.

A. G. Simonton, em seu sermão “Os meios necessários e próprios para plantar o Reino de Jesus Cristo no Brasil” em 1867, expõe cinco pontos necessários para a evangelização. Primeiramente, ele nos diz que é necessário ter vida santa, pois “na falta desta pregação os demais meios não hão de ser bem sucedidos”. Em segundo lugar, ele defende a distribuição de literatura bíblica como livros, folhetos e a própria Bíblia, pois “a imprensa é a arma poderosa para o bem”. Em terceiro lugar, a pregação individual, pois “cada crente deve comunicar ao vizinho ou próximo aquilo que recebe”. Em quarto lugar, ele menciona o chamado ministerial, a pregação por pessoas designadas e ordenadas para esse encargo. Por fim, expõe a necessidade de se estabelecer escolas para os filhos dos membros das igrejas, em uma iniciativa social e de preocupação familiar.

Não há projeto mais duradouro e transformador do que este: pregar o Evangelho de Cristo plantando igrejas que transformam vidas. Plantar igrejas é missão da Igreja.

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