Betel Brasileiro – Como você define o que é missão?

Ronaldo Lidório – Missão é um movimento salvífico e kerygmático, que parte do coração e da volição de Deus, revelado nas Escrituras, na qual o Evangelho é prometido, no Messias, a todas as pessoas de todos os povos espalhados pelo mundo. Portanto, é um movimento de Deus. Eu poderia dizer que tem como principais elementos: (1) O sacrifício do Cordeiro, o qual “com o seu sangue resgatou para Deus homens que procedem de toda língua, tribo, povo e nação”; (2) O dunamis do Espírito derramado sobre a igreja em Atos, que a capacita para comunicar a Palavra revelada; (3) O amor do Pai que, a cada dia, tenta nos dizer que uma alma vale mais do que o mundo inteiro; (4) A ação da igreja como comunidade propagadora desta mensagem que salva a todo aquele que crê. O cerne da obra missionária, portanto, não é a visão do mundo, mas a ação de Deus.

Betel Brasileiro – Como você vê a diferença entre o que se fala e o que se faz sobre missões na igreja hoje?

Ronaldo Lidório – A igreja de forma geral tem entendido bem os princípios bíblicos que motivam a ação missionária. Isso é extremamente positivo. Hoje já se entende que é preciso falar de Cristo tanto perto quanto longe, que a prioridade da igreja deve ser a prioridade de Deus e que a igreja é também uma comunidade funcional – precisa fazer diferença na terra. Entretanto, ainda há um caminho para andar. Ainda vemos a força missionária brasileira muito aquém do seu potencial, percebemos que o processo de cooperação entre denominações e agências missionárias, em áreas com fortes barreiras ao Evangelho, ainda é muito lento e há uma gritante necessidade de entendermos que o caráter é mais importante do que a habilidade. Isso porque a grande parte dos problemas missionários que temos, dentro ou fora do campo, surge a partir de uma vida distante de Deus e não da falta de conhecimento acadêmico.

Betel Brasileiro – A igreja brasileira é de fato um celeiro missionário? Se isso é verdade, quais são as implicações?

Ronaldo Lidório – Não creio que sejamos ainda um celeiro missionário para o mundo. A visão e a seriedade missionária crescem em nossas igrejas – e louvamos a Deus por isso – mas há barreiras interferindo no esforço de nos tornarmos uma nação tipicamente missionária. Vou citar apenas três: (1) Vivemos no Brasil uma tendência eclesiástica de enfatizar mais o ministério humano do que a glória de Deus – o que obscurece nossa real motivação para a missão (2) Temos vivido um cristianismo mais contemplativo do que prático. Para que isso mude, faz-se necessário um chamado ao compromisso e não apenas ao conhecimento; (3) Pastores locais não pregam muito sobre a missão. Vejo a importância do testemunho missionário, das conferências anuais com preletores especiais, dos powerpoints e filmes apresentados, e também do momento informativo e das ofertas. Entretanto, a igreja brasileira não será um celeiro missionário para o mundo até que os pastores locais passem a expor o que a Palavra diz sobre a visão de Deus para Seu povo na terra.

Betel Brasileiro – Qual o fator determinante para a igreja realizar missões e o que impede essa ação?

Ronaldo Lidório – Conheço uma pequena igreja entre a tribo Bassari no Togo (África) que decidiu viver como Jesus. Passaram a dar ênfase à oração, à santidade de vida e priorizar o que é importante para Deus, especialmente a comunhão e o louvor. Em pouco tempo, sentiram-se atraídos por outra grande aldeia Bassari, onde não havia nenhum convertido. Em um dos cultos, dois homens foram despertados pelo Senhor e decidiram se mudar para lá. A igreja se comprometeu com eles. Após três anos, aquela aldeia estava toda rendida aos pés de Jesus. Até onde sei, isso  algo único no oeste africano. Aquela comunidade, mesmo sem utilizar o termo “missões” em sua própria língua, era uma comunidade missionária. Ou seja, o fator determinante para se cumprir a missão é o mesmo para se cumprir qualquer outro mandamento bíblico: estar submisso a Deus e colocar a mão no arado.

Betel Brasileiro – Você certa vez afirmou: “Não creio em um despertamento missionário sem quebrantamento espiritual.” O que isso significa?

Ronaldo Lidório – Cumprir a missão é cumprir um mandamento bíblico. Sem dúvida não conseguiremos cumpri-lo sem submissão ao Senhor. Os grandes movimentos missionários na história, como a Igreja Nestoriana no oriente e a Moraviana no ocidente, passaram por um quebrantamento espiritual que os levou a desejar viver como Jesus antes de serem impactados por uma profunda compaixão pelo mundo perdido. E quando chegou o momento, aqueles homens e mulheres estavam dispostos a viver e morrer por Ele. O Conde Zinzendorf afirmou: “Só tenho uma paixão: Ele”. Não podemos divorciar nosso apelo missionário de uma pregação por santidade de vida. Creio que teólogos e missiólogos nos indicarão o caminho, mas apenas uma igreja cheia do Espírito Santo alcançará o mundo sem Cristo.

Betel Brasileiro – Como você entende a batalha espiritual em missões?

Ronaldo Lidório – O capítulo dois de Efésios nos ensina que, na nossa caminhada cristã, lutamos com o mundo, com a nossa própria carne e com o diabo, que recebe ali o título de “príncipe da potestade do ar”. A batalha contra as forças espirituais, portanto, é apenas parte da guerra, pois nem tudo é demoníaco. Assim, antes de tudo, precisamos de muito discernimento espiritual na obra missionária para perceber a diferença entre os desafios e embates com a carne, com o mundo e com o diabo. Tendo isso em mente, podemos ver que, como a expansão da igreja de Cristo na terra é visão de Deus, o diabo fará tudo quanto puder para tentar enfraquece-la ou distorcê-la. Para que isso aconteça, é necessário que ele trabalhe especialmente na fonte da agência que propaga a mensagem: a Igreja. Temos a tendência de crer que as manifestações sobrenaturais diabólicas formam a linha de frente no seu ataque à igreja. Mas há o ataque sutil que destrói a autoestima, gera conflitos de liderança, corrompe o relacionamento do casal, fomenta a mentira, incita o suborno e enche a mente com o que não edifica. Ataques como esses podem devastar uma família, igreja ou equipe na frente missionária sem grandes alardes. Na vida cristã, é preciso renovar a cada dia o nosso compromisso com Deus.

Betel Brasileiro – Até que ponto as estratégias de crescimento e alcance podem determinar os resultados do trabalho missionário?

Ronaldo Lidório – As estratégias de alcance fazem parte da nossa responsabilidade cristã. Não garantem, porém, um bom resultado, visto que tanto na obra missionária como na vida cristã precisamos da graça de Deus para que algo bom e novo aconteça. Podemos plantar e regar, mas o crescimento vem do Senhor. Ele usa tanto a eloquência de Paulo como o coração apaixonado de Pedro. É preciso também lembrar que não devemos definir a ação missionária em termos de resultados, mas de fidelidade. Ou seja, somos tomados positivamente pelo desejo inerente de ver a obra avançar, a Igreja crescer e pessoas se renderem ao Senhor Jesus. Contudo, somos chamados primariamente para uma vida bíblica, que cumpre a vontade de Deus e existe para a Sua glória. E muitos viveram assim sem colher os frutos do seu trabalho.

Betel Brasileiro – Como a globalização afeta a igreja e a sua tarefa de fazer missões?

Ronaldo Lidório – Eu diria que a globalização influencia a obra missionária em alguns aspectos:
(1) Temos maior acesso à informação. Isso contribui muito para as pesquisas missionárias. Assim, já sabemos quem são os pouco ou não-alcançados e onde eles vivem.
(2) O mundo ganhou maior mobilidade social. Dessa forma podemos encontrar centros urbanos, como Dakar, com mais de 200 etnias representadas. A isso podemos chamar de “caldeirão étnico” com grandes oportunidades de evangelização. A atual tendência populacional será a concentração étnica em grandes centros urbanos – o que mudará nosso foco nas próximas décadas.
(3) Os missionários passaram a se locomover entre os ministérios e campos com mais rapidez. Em Gana, África, os missionários da primeira geração (década de 40) trouxeram seus caixões com eles, de navio, quando aportaram no país. Planejavam viver e morrer ali. Hoje o missionário tende a trabalhar mais em equipes e passar em média, não mais de quatro ou cinco anos em cada campo.
(4) Mesmo em grupos tradicionais isolados, há crescente interesse pelo mundo exterior. Assim, o ensino do inglês como língua global, por exemplo, pode abrir portas para o Evangelho em países islâmicos.
(5) A internet levantou uma grande expectativa no processo de evangelização em países ainda fechados, especialmente por meio das redes sociais globais. Entretanto, pela própria estrutura aberta e vasta, tem sido difícil usá-la como um instrumento preciso, e ainda há muitas limitações.
(6) Mas há também influências negativas como a massificação, o culto à personalidade, a atração por quaisquer métodos (bíblicos ou não) de grande público e o início de uma era em que o pastoreio individual do crente perde espaço. É preciso cautela.

Betel Brasileiro – O que é ser uma “igreja visionária”?

Ronaldo Lidório – O desafio que temos pela frente, na tentativa santa de conciliar nossa teologia com a vida da igreja, será único em sua condição histórica e nas implicações no Reino de Deus. Necessitamos ser uma igreja visionária que traduza sua teologia perante uma realidade contemporânea, uma igreja que busque ser cheia do Espírito, tremendamente inconformada com o mundo, que viva os valores do Reino e aceite o desafio de ultrapassar barreiras para fazer o nome de Jesus conhecido entre todas as nações. Uma igreja visionária é aquela que põe as mãos no arado e ara a terra.

Betel Brasileiro – Como o conhecimento de Deus influencia a atitude dos redimidos para com os perdidos e para com os povos não-alcançados?

Ronaldo Lidório – Quando nos achegamos a Deus, passamos a experimentar mais da visão de Deus em nossas vidas a partir de coisas simples, desde o relacionamento com os filhos em casa até a forma como nos comunicamos na rua. Andar com Jesus impinge em nós Seu caráter. E esta é a caminhada cristã. Sabemos que a pregação do Evangelho ao mundo perdido é uma prioridade no coração do Senhor. Ele mesmo afirmou que o campo é o mundo e que nós somos a luz do mundo. Portanto, qualquer visão menor do que o mundo não é visão de Deus.

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